• vivi.casaroli

Um minutinho: O pior encontro sexual da terra, graças à falta de imunidade

"Há muitos outros peixes no mar!"

Já ouviu essa expressão? Ela até pode ser verdadeira para nós, seres humanos, mas com certeza não é verdadeira no próprio mar. Explico melhor: não é em todo o canto do oceano que existem "partidos" de sobra esperando para conhecer a "peixinha" de suas vidas. No fundo do mar, mais especificamente entre 1.000 e 3.000 metros de profundidade [1], a existência de peixes no mar é bem escassa. Essa dura realidade é particularmente sentida pelo peixe-diabo negro: apenas 1% dos machos de diabo negro encontrarão uma fêmea durante o curso de suas vidas [2].


Como esse encontro é extremamente raro, quando ele acontece, os diabos negros fazem questão de que ele se torne inesquecível. Ao encontrar uma fêmea, o macho de diabo negro a morde e, após permanecer fixado à ela por um bom tempo, os tecidos de sua boca começam a se fundir com os tecidos do corpo da fêmea. Ele fica literalmente colado nela! O macho se torna nada mais e nada menos do que um apêndice extra no corpo da fêmea; seus olhos e barbatanas atrofiam-se, e ele passa o resto de sua vida nutrindo-se do que a circulação sanguínea da fêmea leva até o seu corpo. No entanto, ele continua vivo: respira através de suas próprias guelras e produz esperma para fertilizar os óvulos da fêmea [3]. Esse comportamento é chamado de parasitismo sexual, e ele pode ser temporário ou permanente de acordo com a espécie de diabo negro.



Essa fusão de corpos não deveria gerar uma resposta imune nos corpos dos dois peixes? Afinal, todos os vertebrados (incluindo nós, seres humanos) possuem tanto o sistema imune inato como o sistema imune adaptativo. Estes sistemas imunológicos combatem tudo aquilo que é visto como um "corpo estranho" dentro do organismo. Em transplantes de órgãos, por exemplo, os tecidos do doador e do beneficiado precisam ser compatíveis e o médico ainda precisa prescrever remédios que suprimam temporariamente o sistema imunológico do receptor para que seu corpo não monte uma resposta imunológica mortal e rejeite o novo órgão. Da mesma forma, quando as fêmeas dos vertebrados engravidam, seus corpos precisam inibir o sistema imune de diversas formas para que ele não acabe destruindo o "corpo estranho" do feto [4].


Uma pesquisa recente verificou que, nas espécies de diabo negro aonde o parasitismo sexual acontece, os peixes perderam genes da imunidade adaptativa ao longo da sua evolução[5]! Ou seja, estes peixes não têm mais os genes dos linfócitos B, que produzem os anticorpos, e dos linfócitos T, responsáveis por destruírem células infectadas. Os diabos negros parecem ter trocado a imunidade adaptativa pela capacidade de se reproduzir agressivamente, já que encontrar parceiras(os) é tão raro em seu habitat.


Essa característica de desacoplar as imunidades inata e adaptativa é algo extremamente raro para os vertebrados. Geralmente, uma sempre vem acompanhada da outra. Os responsáveis pela pesquisa sobre a imunidade do diabo negro concluem em seu estudo que os diabos negros provavelmente possuem uma imunidade inata reorganizada e melhor equipada para lidar sozinha com os patógenos do meio ambiente [5].


Entender melhor os mecanismos que tornam possível viver apenas com a imunidade inata podem acabar, um dia, nos ajudando a melhorar as defesas imunológicas inatas de humanos que sofrem com deficiência imunológica. Quem diria que teríamos tanto a aprender com a vida sexual desse feinho porém fascinante peixe abissal?



Referências


[1] https://oceanexplorer.noaa.gov/forfun/creatures/facts/kids_guide_anglerfish.pdf. Último acesso: 11 de agosto, 2020.


[2] 2020. Simon, M. Absurd Creature of the Week: The Anglerfish and the Absolute Worst Sex on Earth. Wired. https://www.wired.com/2013/11/absurd-creature-of-the-week-anglerfish/. Último acesso: 11 de agosto, 2020.


[3] 2020. Niller, E. The Anglerfish Deleted Its Immune System to Fuse With Its Mate. Wired. https://www.wired.com/story/the-anglerfish-deleted-its-immune-system-to-fuse-with-its-mate/?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=6783834ccd-briefing-dy-20200731&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-6783834ccd-42107679. Último acesso: 11 de agosto, 2020.


[4] 2011. Munoz-Suano, A., Hamilton, A. B., & Betz, A. G. Gimme shelter: the immune system during pregnancy. Immunological Reviews. doi:10.1111/j.1600-065x.2011.01002.x 


[5] 2020. Jeremy B. Swann, Stephen J. Holland, Malte Petersen, Theodore W. Pietsch, Thomas Boehm. The immunogenetics of sexual parasitism. Science. DOI: 10.1126/science.aaz9445

 
 

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