• vivi.casaroli

Um minutinho: O famoso "gene gay"

O mês de junho é reconhecido mundialmente como o mês do orgulho LGBTQI+ (sigla que engloba: (1) as orientações sexuais das Lésbicas, Gays, e Bissexuais; (2) os gêneros Transexuais, Queers, e Intersexuais; (3) e o + representando as pessoas assexuadas, as(os) aliadas(os) do movimento, e as demais denominações desse espectro, como os pan- e polissexuados). O motivo da escolha do mês de junho se deve a um episódio simbólico que ocorreu há 50 anos atrás na boate estadunidense Stonewall Inn. A perseguição da polícia a membros da comunidade era rotineira e, nesse dia, houve um embate entre as pessoas LGBTQI+ e os policiais que foi o catalisador para a consolidação de um movimento de resistência. Nessa mesma época, no Brasil da Ditadura Militar, as agressões de policiais a travestis e as manifestações explícitas de preconceito também eram comuns [1]. A Parada do Orgulho LGBTQI+ surgiu pela primeira vez um ano depois do ocorrido em Stonnewall, e hoje acontece em diversos países do planeta, inclusive no Brasil, aonde a Parada de São Paulo assumiu o lugar do maior evento LGBTQI+ do mundo [2].



DNA = Destino?


Com os avanços da compreensão dos mecanismos por trás do funcionamento do DNA humano e das tecnologias capazes de sequenciar esse DNA, muitas pessoas (dentro e fora da academia) começaram a se questionar se não seria possível que a sexualidade das pessoas pudesse ser prevista apenas olhando para o código genético. A genética é uma das áreas da ciência que mais se entrelaça com questões éticas e sociais; ela é, portanto, uma das áreas com os desdobramentos mais controversos. Vimos isso acontecer com relação a diversos assuntos considerados "tabus", como é o caso de pesquisas que afirmam que a nossa genética pode prever a nossa inteligência, os nossos níveis de violência, e até mesmo definir a nossa "raça" [3]. O complexo assunto da sexualidade humana, obviamente, não ficou para trás no meio dessas polêmicas. Por trás de muitas dessas controvérsias jaz a ideia altamente popular mas extremamente antiquada de que "no nosso DNA está escrito o nosso destino".


Hoje, sabemos que a informação expressada a partir do nosso DNA não só é mutável ao longo de nossas vidas [4] como também é insuficiente para definir por si só o nosso comportamento [5]. O ambiente em que crescemos, juntamente com a nossa genética, caminham juntos para construir o tipo de pessoa em que nos tornamos, e essa relação é muito complexa e difícil de ser prevista. Ainda assim, alguns cientistas abusaram um pouco da premissa "DNA + ambiente = destino" para conduzir pesquisas cujas conclusões, ao invés de serem objetivas, acabaram por refletir as visões pessoais dos investigadores. Sim, às vezes a ciência - ainda mais quando é um assunto que entrelaça tanto com aspectos sociais como a genética - não é tão objetiva quanto gostaríamos, afinal de contas, ela ainda é feita por seres humanos imperfeitos [6].


Infelizmente, muitas das pesquisas que decidiram abordar o tema da sexualidade humana sob a perspectiva da biologia o fizeram de forma maniqueísta, aonde os únicos resultados possíveis eram "homosexual" ou heterosexual"; a possibilidade de que pode existir um gigantesco espectro de sexualidades não foi sequer considerada. Outro problema é que a maioria dessas pesquisas focou apenas em homens gays e, como vimos no primeiro parágrafo, nem todas as cores do arco-íris são homens (vide a sigla LGBTQI+).


Pesquisas (no mínimo) preocupantes 👀


Alguns estudos, no passado, sugeriram que a homosexualidade é fruto de alguma "irregularidade" que acometeu o ambiente do útero materno. Pesquisas já chegaram a afirmar que os gays nascem devido à níveis de estresse elevados durante a gravidez ou à condições hormonais atípicas durante o desenvolvimento do feto [7, 8]. Existem diversos problemas com esse tipo de estudo. Além do fato de que o primeiro estudo citado só analisou por volta de 200 mulheres grávidas, os autores de ambos os estudos partem do princípio de que algo "fora do padrão" foi o responsável pela origem do indivíduo homosexual. Esse "padrão" é, logicamente, aquele estabelecido por pessoas heterossexuais. Muito embora, quando adultos, tanto indivíduos homo- quanto heterossexuais vivam vidas igualmente saudáveis do ponto de vista da biologia [9], o padrão do que é "normal" na gravidez é estabelecido somente por uma maioria de cientistas heterossexuais, e com base no que eles próprios consideram "normal". Partindo do princípio de um "padrão" escolhido subjetivamente, os autores desses estudos estão sujeitos a apresentar observações enviesadas e a classificar a homossexualidade como sendo resultado de um "evento atípico". Além disso, estudos com gêmeos idênticos que passaram pelas mesmas condições uterinas, aonde um é homossexual e outro não, desmentem teorias que tentam relacionar homossexualidade à condições "irregulares" de desenvolvimento [10].


Nos anos 90, alguns estudos demonstraram que gêmeos idênticos estão mais propensos a ter a mesma orientação sexual do que gêmeos fraternos ou irmãos que foram adotados pela mesma família [11]. Um estudo de 93, especificamente, mostrou que 64% dos irmãos homossexuais estudados carregavam as mesmas características genéticas em uma região do cromossomo X chamada Xq28 [12]. Estes resultados colocaram no radar da mídia e também de alguns pesquisadores a ideia de que seria possível encontrar um "gene gay", capaz de estabelecer a sexualidade de uma pessoa antes mesmo dessa pessoa nascer. No entanto, mais tarde, outros estudos tentaram replicar as análises do estudo de 93 e não chegaram nos mesmos resultados, o que enfraqueceu a evidência de que os genes da região Xq28 estariam ligados à definição da sexualidade em homens [13]. Mais estudos também chegaram a explorar a base genética da homossexualidade humana, mas, com frequência, esses estudos analisaram somente homens e olharam para um número muito pequeno de indivíduos. Tais estudos não puderam ser replicados e, portanto, validados por outros grupos de pesquisa que fizeram os mesmos experimentos [14].


Estudo bafônico


No ano passado, um estudo que analisou quase meio milhão de genomas concluiu o que muitos já imaginavam: existe sim um componente genético para a sexualidade humana, mas os genes não tem a capacidade de prever a orientação sexual de ninguém [15].


Um dos pontos altos desse estudo é que ele também incluiu mulheres em sua análise. Os autores entrevistaram 477.522 pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo biológico e investigaram se elas dividiam as mesmas informações genéticas em lugares específicos do DNA; esse método se chama Genome-Wide Association Study (ou Estudo de Associação em Todo o Genoma, em português). Essa técnica consiste em olhar para um conjunto de "pedaços" do DNA que variam em diferentes indivíduos e analisar as chances de algumas dessas variantes estarem associadas a uma determinada característica.


Agora a pergunta do milhão: os cientistas finalmente encontraram o tão buscado "gene gay"? Evidente que não! Ao invés disso, eles encontraram muitos genes diferentes ao longo de todo o genoma, cada um gerando um pequeno efeito e contribuindo com um aspecto diferente da sexualidade, assim como acontece com todos os outros comportamentos humanos. Dentre as milhões de variantes genéticas analisadas, os autores do estudo foram capazes de identificar as 5 mais comuns entre os indivíduos atraídos por pessoas do mesmo sexo biológico. A pesquisa estimou que a genética consegue explicar, no máximo, 25% da sexualidade de um indivíduo, sendo que o resto se daria devido a aspectos ambientais e culturais. Todos os genes identificados nesse estudo, juntos, não conseguiram explicar nem 1% do porque as pessoas analisadas - tão diversas geneticamente - sentem atração por indivíduos do mesmo sexo biológico que elas.


** Mensagem para levar para casa **


Quando tentamos entender a nós mesmos através da ciência, de novo e de novo somos surpreendidos com a nossa própria complexidade. A matéria que nos compõe, o nosso DNA, nem chega perto de explicar o que nós somos, e porquê nós somos.


As milhões de variantes genéticas evidenciadas nos estudos aqui relatados e em tantos outros aponta para o universo microscópico de diferenças que existe dentro de cada um de nós. Esse universo sai do nível celular e se espelha em muito maior escala quando olhamos uns para os outros. Os seres humanos são múltiplos em muitas das suas características: não existe um só tipo de cabelo, um só tom de pele, uma só altura. Nossos comportamentos, gostos, desconfortos, manias e perspectivas de mundo são igualmente numerosos. Diversidade é parte de ser humano. Que motivos temos para pensar que, com a nossa sexualidade, isso seria diferente?



Referências


[1] 2019. Sales, R. Por que junho é o mês do orgulho LGBT #PROUDATWORK. https://maisdiversidade.com.br/por-que-junho-e-o-mes-do-orgulho-lgbt-proudatwork/. Último acesso: 5 de julho, 2020.


[2] 2019. Mídia Ninja. A maior do mundo: confira as imagens da 23a. Parada do Oruglho LGBT de SP. https://midianinja.org/news/a-maior-do-mundo-confira-as-imagens-da-23a-parada-do-orgulho-lgbt-de-sp/. Último acesso: 5 de julho, 2020.


[3] 2013. Hayden, E. C. Ethics: Taboo genetics. Nature News Feature. https://www.nature.com/news/ethics-taboo-genetics-1.13858. Último acesso: 5 de julho, 2020.


[4] 2019. Giacomo Cavalli & Edith Heard. Advances in epigenetics link genetics to the environment and disease. Nature. https://doi.org/10.1038/s41586-019-1411-0


[5] 2010. Leslie D. Leve, David C. R. Kerr, Daniel Shaw, Xiaojia Ge, Jenae M. Neiderhiser, Laura V. Scaramella, John B. Reid, Rand Conger, and David Reiss. Infant Pathways to Externalizing Behavior: Evidence of Genotype x Environment Interaction. Child Dev. doi: 10.1111/j.1467-8624.2009.01398.x


[6] 1983. Norris S. Hetherington. Just how objective is science? Nature. https://doi.org/10.1038/306727a0


[7] 1988. L Ellis, W Peckham, M. A Ames, D Burke. Sexual Orientation of Human Offspring May be Altered by Severe Maternal Stress During Pregnancy. The Journal of Sex Research. doi:10.1080/00224498809551449 


[8] 2011. Jacques Balthazart. Minireview: Hormones and Human Sexual Orientation. Endocrinology. https://doi.org/10.1210/en.2011-0277


[9] 2014. Susan D Cochran, Jack Drescher, Eszter Kismödi, Alain Giami, Claudia García-Moreno, Elham Atalla, Adele Marais, Elisabeth Meloni Vieira & Geoffrey M Reed. Proposed declassification of disease categories related to sexual orientation in the International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD-11). Policy & practice. WHO. doi:http://dx.doi.org/10.2471/BLT.14.135541


[10] 2015. Udo Schuklenk, Edward Stein, Jacinta Kerin, William Byne. The Ethics of Genetic Research on Sexual Orientation. Reproductive Health Matters. sci-hub.tw/10.2307/3774948


[11] 1998. R C. Pillard, J. M Bailey. Human Sexual Orientation Has a Heritable Component. Human Biology. sci-hub.se/10.2307/41465642


[12] 1993. DH Hamer, S Hu, VL Magnuson, N Hu, AM Pattatucci. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science. DOI: 10.1126/science.8332896


[13] 2010. Philip M. LEE. A Review of Xq28 and the Effect on Homosexuality. Interdisciplinary Journal of Health Sciences. DOI: https://doi.org/10.18192/riss-ijhs.v1i1.1533


[14] 2019. Melinda C. Mills. How do genes affect same-sex behavior? Science Genomics. sci-hub.tw/10.1126/science.aay2726


[15] 2019. Andrea Ganna, Karin J. H. Verweij, Michel G. Nivard, Robert Maier, Robbee Wedow et al. Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior. Science. DOI: 10.1126/science.aat7693

 
 

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