• vivi.casaroli

"O vírus que não olha classe social"? A ciência das pandemias conta uma história diferente.

A mão das pandemias sempre pesou mais sobre os grupos sociais marginalizados.

Fonte: RioOnWatch


Já é possível concluir que certas comorbidades (a presença de mais de uma ou de várias doenças na mesma pessoa), idade avançada, diabetes, obesidade, e ser do sexo biológico masculino são todos quadros que agravam os sintomas da COVID-19 [1]. No entanto, conforme acumulamos dados sobre quais são os contextos em que o SARS-CoV-2 causa mais dano, alguns recortes interessantes de cor-raça (ou etnia, do ponto de vista da biologia) já podem começar a ser traçados. Nos EUA, apesar de 48% dos casos e 9% das mortes causadas por COVID-19 não possuírem nenhuma identificação de qual era a etnia das pessoas, já se sabe que os afro-americanos estão morrendo 2 vezes mais do que o esperado para o tamanho da sua população. Hispânicos e latinos apresentam números desproporcionalmente elevados de casos e, nas populações indígenas, os infectados seguem estas mesmas tendências, às vezes chegando a compor 60% dos casos de COVID-19 em lugares aonde a etnia indígena representa apenas 9% da população [2]. Nos EUA, sabemos que as etnias citadas acima (juntamente com outras minorias) compõe 58% das famílias de baixa renda [3].


No Brasil, ainda não há estudos tão detalhados sobre como a COVID-19 está afetando diferentes etnias e classes sociais. No entanto, alguns números divulgados já apontam para um cenário que vai de encontro com o dos Estados Unidos. No Alagoas, as pessoas negras têm 12 vezes mais chances de morrer devido ao SARS-CoV-2 do que pessoas pardas e brancas [4]. De acordo com o boletim epidemiológico da Prefeitura de São Paulo do dia 30 de abril, afrodescendentes apresentam maior risco de morrer por COVID-19 (62% mais risco para a população negra e 23% para a população parda, comparando sempre com o risco para a população branca) [5]. Dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) também apontam para uma maior taxa de mortalidade entre povos indígenas (9,9%) do que na população brasileira de forma geral (6,1%) [6]. As populações negras, pardas e indígenas compõem a maior parte da população de baixa renda do nosso país [7, 8].


Vamos ver à seguir que essa não é a primeira vez que, em uma pandemia, constatamos um impacto mais brutal para pessoas pertencentes a classes sociais menos favorecidas.


A Peste Negra marcada nos esqueletos camponeses


Os séculos XIII e XIV foram épocas de clima instável e períodos de fome e pobreza que castigaram os europeus logo antes da Peste Bubônica emergir. Existem evidências que apontam que, em meados de 1290, 70% das famílias inglesas viviam na linha ou abaixo da linha de pobreza (definida como a capacidade de comprar alimentos e bens que eram o suficiente apenas para não morrer de fome e de frio) [9]. Nessa época, como agora, a má nutrição e doenças em geral eram mais prevalentes em pessoas das classes sociais mais baixas. Um estudo que analisou marcadores de estresse em centenas de esqueletos medievais da Dinamarca e da Inglaterra demonstrou que as pessoas que já estavam com a saúde comprometida quando a Peste emergiu - ou seja, as pessoas mais pobres - estavam mais propensas a morrer [10]. Na Inglaterra, cerca de 27% dos proprietários de terras morreram devido à Peste comparado com 40-70% de mortalidade entre os camponeses mais humildes [9]. O cenário de desigualdade econômica que devastava a saúde das classes mais pobres durante a Idade Média tornou a Peste Negra mais grave do que ela precisava ser.


Velhas epidemias no Novo Mundo


As doenças trazidas pelos europeus durante a colonização das Américas contribuíram para que uma fatia gigantesca da população indígena fosse dizimada [11]. Muito embora a falta de imunidade adquirida dos nativos frequentemente leve a culpa pelas altas taxas de mortalidade desse período, as condições sociais impostas aos indígenas pelos colonizadores amplificaram os efeitos biológicos das epidemias trazidas da Europa. Colonizadores ingleses invadiam e queimavam fazendas do povo Cherokee, nos Estados Unidos, o que ajudou a espalhar a varíola e reduzir essa população indígena para os números mais baixos de que se tem registro [12]. Muitas missões espanholas nas Américas coagiam os indígenas a pesadas jornadas de trabalho e a viver em espaços abarrotados de gente, o que contribuiu para a dispersão de uma série de doenças (varíola, sarampo, tifo, tétano, caxumba, rubéola, catapora etc) e para a eternização de marcas de estresse também encontradas nos esqueletos de indígenas do século XVI [13]. As epidemias que acometeram os povos originários da América Latina dispersaram e mataram de forma avassaladora, e isso foi devido às condições precárias de saúde a que os nativos foram submetidos.


A gripe espanhola também ressaltou desigualdades


A gripe espanhola matou mais em um ano do que a Peste Negra em um século: mais de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo perderam suas vidas [14]! Mas algumas comunidades foram mais atingidas do que outras. As populações indígenas dos EUA sofreram com uma taxa de mortalidade 4 vezes maior do que a do resto do país, e parte da razão para esse número assustador foram as condições precárias de saúde, pobreza e má nutrição dos indígenas [9, 14]. Ainda nos Estados Unidos, a população negra - que já estava mais suscetível a adoecer por doenças infecciosas devido à pobreza e à segregação racial, que os obrigava a serem tratados em hospitais despreparados para atender um contingente grande de pessoas - sofreu mais com a gripe do que outras etnias [15]. Outro estudo feito com registros de censo e certidões de óbito da cidade de Oslo, na Noruega, durante a epidemia da gripe espanhola encontrou uma taxa de mortalidade 50% maior em áreas pobres da cidade [16]. No Brasil, a população mais pobre da época também estava mais suscetível a contrair a doença devido às condições materiais escassas em que vivia [17]. Também sabemos que, nessa época, a população brasileira mais pobre era composta em grande parte pela população negra, que havia sido recentemente liberta da escravidão e largada à própria sorte: sem garantias de moradia, saúde, e educação pelo governo, e tendo a sua mão de obra substituída pela mão de obra de imigrantes europeus [18].


** Mensagem para levar para casa **


Por mais que os vírus e bactérias por si só sejam indiferentes à etnia e classe social, a maneira como as sociedades humanas estão estruturadas acaba guiando o caminho que estes microrganismos percorrem na população. Como a história e a ciência mostram, as populações mais pobres estão mais vulneráveis e, frequentemente, são atingidas de forma mais brutal pelas epidemias.


No nosso país, 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada e mais de 100 milhões de pessoas têm uma renda média menor do que 1 salário mínimo (atualmente no valor de R$ 1.039) [19, 20]. Fica difícil para essa parcela da população lavar as mãos e comprar sabonete, álcool em gel, e máscaras. Sabemos também que as etnias presentes em nosso país não são todas atingidas da mesma forma, já que as populações negras e pardas representam a maior parte das pessoas que estão abaixo da linha de pobreza e a maior parte das pessoas que não têm acesso a saneamento básico [21].


Inúmeras epidemias já revelaram as desigualdades que permeiam as sociedades ao redor do mundo. Com a COVID-19, não está sendo diferente. O que nos resta saber é se, depois que tudo passar, levaremos para a frente a ideia de que precisamos transformar a nossa sociedade ou deixaremos essa compreensão cair no esquecimento, como aconteceu depois de todas as epidemias até agora.



Referências


[1] 2020. Garg  S, Kim  L, Whitaker  M,  et al.  Hospitalization rates and characteristics of patients hospitalized with laboratory-confirmed coronavirus disease 2019—COVID-NET, 14 United States, March 1-30.  MMWR Morb Mortal Wkly Rep.


[2] The COVID Racial Data Tracker. https://covidtracking.com/race. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[3] 2015. Mather, M. Race/Ethnic Income Gap Growing Among U.S. Working Poor Families. https://www.prb.org/working-poor-families/. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[4] 2020. Informe Epidemiológico de 7 de maio. Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde CIEVS/AL. http://www.saude.al.gov.br/wp-content/uploads/2020/05/Informe-Epidemiol%C3%B3gico-COVID-19-n%C2%BA-62-07052020.pdf. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[5] 2020. COVID-19 Boletim Quinzenal de 30 de abril. Secretaria Municipal da Saúde da cidade de São Paulo. https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/PMSP_SMS_COVID19_Boletim%20Quinzenal_20200430.pdf. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[6] 2020. Daniel Biasetto. Em meio a subnotificações de casos, coronavírus avança na área de índios isolados. Época. https://epoca.globo.com/sociedade/em-meio-subnotificacoes-de-casos-coronavirus-avanca-na-area-de-indios-isolados-24452885. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[7] 2017. IBGE: 50 milhões de brasileiros vivem na linha de pobreza. Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-12/ibge-brasil-tem-14-de-sua-populacao-vivendo-na-linha-de-pobreza. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[8] 2020. OIT pede ação dos países para erradicar pobreza entre povos indígenas. Nações Unidas Brasil. https://nacoesunidas.org/oit-pede-acao-dos-paises-para-erradicar-pobreza-entre-povos-indigenas/. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[9] 2020. Wade L et al. An unequal blow. Science.


[10] 2008. Sharon N. De Witte and James W. Wood. Selectivity of Black Death mortality with respect to preexisting health. PNAS.


[11] 2016. Bastien Llamas, Lars Fehren-Schmitz, Guido Valverde, Julien Soubrier, Swapan Mallick, Nadin Rohland et al. Ancient mitochondrial DNA provides high-resolution time scale of the peopling of the Americas. Science Advances.


[12] 2015. P Kelton. Cherokee Medicine, Colonial Germs: An Indigenous Nation's Fight against Smallpox, 1518–1824. Vol 11. Norman: University of Oklahoma Press, 2015.


[13] 2000. Clark Spencer Larsen. Reading the Bones ofLa Florida. Scientific American. http://physioweb.org/articles/bones_of_la_florida.pdf. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[14] 2014. Benjamin R. Brady, Howard M. Bahr. The Influenza Epidemic of 1918–1920 among the Navajos: Marginality, Mortality, and the Implications of Some Neglected Eyewitness Accounts. The American Indian Quarterly.


[15] 2018. James J. Feigenbaum, Christopher Muller, Elizabeth Wrigley-Field. Regional and racial inequality in infectious disease mortality in U.S. cities, 1900-1948. National Bureau of Economic Research.


[16] 2005. Svenn-Erik Mamelund. A socially neutral disease? Individual social class, household wealth and mortality from Spanish influenza in two socially contrasting parishes in Kristiania 1918–19. Social Science & Medicine.


[17] 2010. Christiane Maria Cruz de Souza. A gripe espanhola na Bahia de Todos os Santos: entre os ritos da ciência e os da fé. Dynamis.


[18] 2011. Gilberto Maringoni. O destino dos negros após a Abolição. Desafios do Desenvolvimento. IPEA.


[19] 2019. Brasil tem 48% da população sem coleta de esgoto, diz Instituto Trata Brasil. Agência Senado. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/09/25/brasil-tem-48-da-populacao-sem-coleta-de-esgoto-diz-instituto-trata-brasil. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[20] 2019. Renda média de mais da metade dos brasileiros é inferior a um salário mínimo. Agência O Globo. https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/10/renda-media-de-mais-da-metade-dos-brasileiros-e-inferior-um-salario-minimo.html. Último acesso: 30 de maio, 2020.


[21] 2019. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Estudos e Pesquisas - Informação Demográfica e Socioeconômica no. 41. IBGE. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf

 
 

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