• vivi.casaroli

O "corona" está mutando e ficando mais perigoso? Entenda por que ainda não podemos afirmar isso.

O que não faltou na mídia nesses últimos 2 meses foram artigos com afirmações corajosas sobre as mutações do novo coronavírus. Aqui no Brasil, teve gente falando que o SARS-CoV-2 se tornou mais "agressivo" e contagioso com novas mutações [1, 2], teve gente falando que as mutações podem, na verdade, ter enfraquecido o vírus [3]. Sabemos que o novo coronavírus tem uma taxa baixa de mutação [4], ainda assim, teve gente afirmando que as mutações foram tantas que já existem umas 30 linhagens diferentes desse vírus por aí [5]. Que confusão! Vamos tentar encontrar sentido nisso tudo.


"O novo coronavírus está mutando" nem deveria ser notícia


Não é novidade: todos os vírus estão mutando, a todo momento [6]! Apesar de filmes como X-Men retratarem as mutações como algo extraordinário e que confere super poderes, as mutações são bastante rotineiras e, na maioria das vezes, não causam uma mudança drástica no ser vivo ou vírus que as carrega [7]. Alguns vírus mutam mais facilmente do que outros devido à estabilidade química do seu material genético. No caso do SARS-CoV-2, um vírus de RNA, as mutações são mais frequentes do que nos vírus de DNA.


As mutações não trazem necessariamente benefícios e nem necessariamente malefícios para o vírus, tudo depende do local no RNA aonde a mutação ocorre. Quando um vírus consegue nos infectar, ele adentra nossas células a fim de fazer cópias dele mesmo. Para fazer essas cópias, ele usa o nosso próprio maquinário celular para que seu RNA seja "lido" e suas proteínas de vírus sejam produzidas. No entanto, esse processo não é perfeito e, às vezes, acontece do nosso maquinário celular "ler" errado o RNA. Consequentemente, fabrica cópias "erradas" de RNA e proteínas "erradas" de vírus. Está aí um mutante: um vírus feito de um RNA e de proteínas diferentes daquelas contidas na "receita" do RNA original que infectou a célula. As mutações acontecem totalmente ao acaso!


Como os vírus estão se multiplicando e mutando a todo momento, é esperado que surjam grupos diferentes de vírus que acumularam mutações em lugares diferentes do RNA. Mas um grupo diferente não significa necessariamente uma linhagem (ou cepa) diferente. É como nos cachorros: um poodle branco e um poodle preto são diferentes, mas isso não significa que eles sejam de raças diferentes. Para que uma linhagem diferente surja, é necessário que as mutações presentes causem mudanças drásticas em propriedades do vírus como:


transmissibilidade (o quão facilmente ele se espalha);

virulência (a sua habilidade de causar doença);

antigenicidade (a forma como o vírus é reconhecido pelo nosso sistema imune) e;

resistência (o quão sensível o vírus é a medicamentos).


Os vírus mutam a todo momento, mas linhagens novas só surgem quando as mutações causam mudanças significativas em propriedades importantes para o ciclo do vírus, como as citadas acima. Se você encontrar reportagens que falam de "novas linhagens", é melhor que os repórteres tenham descrito direitinho quais mutações exatamente justificam o vírus ser considerado uma linhagem nova e por que. Também é preciso que outros virologistas (tirando o autor do estudo) não vejam contradições em falar que aquele vírus é novo mesmo, então certifique-se de que a reportagem menciona se há ou não consenso da comunidade científica frente àquela "nova linhagem".


Os estudos que apontam para vários tipos de "corona"


Um estudo estadunidense do dia 30 de abril (ainda não validado) sugeriu que uma forma mais "transmissível" do SARS-CoV-2 havia surgido e que, sempre que apareceu em um novo local, essa "nova forma" do vírus predominou em número de infecções [8]. Outro estudo do Reino Unido (que analisou somente 160 genomas e foi duramente criticado [9]) aponta para três variantes do novo coronavírus: A, B e C [10]. Ainda outro estudo chinês afirmou que existem já dois tipos diferentes de SARS-CoV-2, o L e o S, dos quais o L (que se espalhou mais na China) seria mais contagioso [11].


Muitos desses estudos encontraram mutações (como a mutação D614G encontrada pelo estudo [8] e as mutações nas variedades L e S do estudo [11]) que, antes pouco observadas nos vírus isolados dos pacientes, acabaram sendo cada vez mais observadas ao longo do tempo. Esses cientistas, então, concluíram que as mutações estavam sendo mais observadas porque aqueles vírus estavam se espalhando mais. Como esses mutantes (aparentemente) apresentam transmissibilidade mais alta do que outros vírus, eles foram classificados como linhagens novas.


Mas nem sempre a alta transmissibilidade vem das mutações que o vírus adquiriu.


Adaptação x Deriva genética


Adaptação [12]: o vírus adquiriu uma mutação ao acaso e essa mutação acabou conferindo benefícios à ele. Por causa dessa mutação, ele ficou melhor em entrar nas células, ou em destruir o pulmão, ou até mesmo em resistir a medicamentos. Nesse caso, esse vírus se tornou mais numeroso do que os outros, afinal, ele faz as coisas de um jeito muito mais eficiente!


Deriva genética [13]: o vírus adquiriu uma mutação ao acaso e essa mutação, como a maioria das mutações, foi neutra e não causou nem benefícios e nem malefícios ao vírus. No entanto, por acaso, esse vírus infectou um italiano que viajou de volta para a europa logo antes do lockdown na China. Esse vírus se espalhou feito louco na europa, mas não por que ele mutou e se tornou mais eficiente, e sim por que os outros vírus ficaram presos lá no lockdown e não tiveram a chance de se espalhar pela europa também.


Você vê a diferença? Nem sempre o sucesso dos vírus vem de suas mutações. Nem sempre eles são mais numerosos porque são mais agressivos. Mas, para diferenciar entre os processos da adaptação e da deriva genética, é preciso muito mais tempo do que tivemos até agora com esse novo coronavírus. Além de ver se um vírus mutante se tornou mais numeroso ou não na população, precisamos testar se aquela mutação específica confere mesmo habilidades especiais ao vírus em testes in vitro e em modelos animais.


** Mensagem para levar para casa **


Saber se o vírus está mutando e novas linhagens estão surgindo é importante até mesmo para desenvolvermos uma vacina que funcione em todas as linhagens existentes. No entanto, até o momento, não existem evidências fortes o suficiente para afirmar que as mutações presentes nas "novas linhagens" são o que realmente as tornam mais eficientes.


Queremos respostas do porquê alguns lugares e algumas pessoas sofrem mais com a COVID-19 do que outros. Mas, até agora, estas respostas podem ser encontradas muito mais na má gestão política e na desigualdade social do que na existência de linhagens mais perigosas.



Referências


[1] 2020. Coronavírus sofreu mutação e se tornou mais agressivo, diz estudo chinês. Veja. https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-sofreu-mutacao-e-se-tornou-mais-agressivo-diz-estudo-chines/. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[2] 2020. Garattoni, B. Coronavírus sofre mutação e se torna mais contagioso, aponta estudo. Super Interessante. https://super.abril.com.br/blog/bruno-garattoni/coronavirus-sofre-mutacao-e-se-torna-mais-contagioso-aponta-estudo/. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[3] 2020. Del Cielo, G. Mutação no coronavírus pode significar um possível enfraquecimento. Mega Curioso. https://www.megacurioso.com.br/ciencia/114386-mutacao-no-coronavirus-pode-significar-um-possivel-enfraquecimento.htm. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[4] https://nextstrain.org/ncov/global?l=clock. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[5] 2020. Tilt. Coronavírus já se transformou em 30 cepas, dizem cientistas chineses...Uol. https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/04/23/o-coronavirus-ja-se-transformou-em-30-cepas-dizem-cientistas-chineses.htm?cmpid=copiaecola. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[6] 2020. Nathan D. Grubaugh, Mary E. Petrone & Edward C. Holmes. We shouldn’t worry when a virus mutates during disease outbreaks. Nature Microbiology.


[7] 2010. Masatoshi Nei, Yoshiyuki Suzuki, and Masafumi Nozawa. The Neutral Theory of Molecular Evolution in the Genomic Era. Annual Review of Genomics and Human Genetics.


[8] 2020. B Korber, W M Fischer, S Gnanakaran, H Yoon, J Theiler, W Abfalterer, B Foley, E E Giorgi, T Bhattacharya, M D Parker, D G Partridge, C M Evans, T Ide Silva, C C La Branche, D C Montefiori. Spike mutation pipeline reveals the emergence of a more transmissible form of SARS-CoV-2. BioRxive.


[9] 2020. Rambaut A. Twitter. https://twitter.com/arambaut/status/1248387395201847296. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[10] 2020. Peter Forster, Lucy Forster, Colin Renfrew, and Michael Forster. Phylogenetic network analysis of SARS-CoV-2 genomes. PNAS.


[11] 2020. Xiaolu Tang, Changcheng Wu, Xiang Li, Yuhe Song, Xinmin Yao, Xinkai Wu, Yuange Duan, Hong Zhang, Yirong Wang, Zhaohui Qian et al. On the origin and continuing evolution of SARS-CoV-2. National Science Review.


[12] https://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/evo_31. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[13] https://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/evo_24. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[14] 2020. Yong E. The Problem With Stories About Dangerous Coronavirus Mutations. The Atlantic. https://www.theatlantic.com/health/archive/2020/05/coronavirus-strains-transmissible/611239/. Último acesso: 17 de maio, 2020.


[15] 2020. Jeremy Draghi and C B Ogbunu. Opinion: The Coronavirus Is Mutating. That’s Not Necessarily Good or Bad. Undark. https://undark.org/2020/05/14/covid-19-evolution-mutation/. Último acesso: 17 de maio, 2020.

 
 

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