• vivi.casaroli

Ligação entre a COVID-19 e mudanças climáticas? Existe sim!


Mais cansativas e numerosas do que as notícias sobre a COVID-19 só as notícias sobre as mudanças do clima. Os termos "mudanças climáticas" e "aquecimento global" vulgarizaram tanto nos últimos tempos que não recebem mais a atenção devida da maioria das pessoas. O que não está sendo frisado e compreendido o suficiente é como as mudanças climáticas são tão perigosas quanto uma pandemia da magnitude da que estamos presenciando no momento. Além disso, o surgimento de novas doenças e as alterações climáticas causadas pelo homem estão intimamente relacionados. 75% das doenças infecciosas emergentes são zoonóticas (doenças que podem ser transferidas ao homem pelos animais, como a COVID-19!), e estas doenças estão estreitamente interligadas com a condição dos ecossistemas à nossa volta [1].


Não é só "comer morcego" que causa pandemias


Já sabemos que o contato íntimo entre humanos e animais é propício para que doenças "pulem" de um para o outro. No século XX, a combinação entre o crescimento da população mundial e a redução dos ambientes naturais culminou em oportunidades ótimas para que microrganismos passassem de animais para pessoas [2]. As doenças zoonóticas surgem, sobretudo, quando os humanos modificam o meio ambiente, e isso pode acontecer através de várias atividades como urbanização, agricultura, exploração madeireira, mineração, criação de animais para consumo, etc. Não podemos culpar os chineses pela atual pandemia enquanto nós, brasileiros, também nos envolvermos com atividades que têm alto potencial de alavancar pandemias futuras.


As atividades humanas citadas acima são as mesmas que contribuem gravemente para a mudança do clima do nosso planeta. Veremos a seguir como as causas e consequências das mudanças climáticas estão entrelaçadas de várias maneiras diferentes com o surgimento e agravamento de novas doenças infecciosas.


Desmatamentos infecciosos


O desmatamento é uma atividade que causa tanto mudanças climáticas adversas [3] como novas pandemias. As florestas são ecossistemas com uma diversidade de seres vivos enorme e essa biodiversidade normalmente ajuda a regular o espalhamento de doenças [4]. Um vírus dificilmente consegue adaptar-se para infectar todos os tipos de seres vivos presentes em uma mata; normalmente, o vírus se especializa em atacar um organismo específico, mas, em um ecossistema diverso, o número de organismos específicos que o vírus consegue atacar está diluído em uma diversidade gigantesca de plantas e corpos de animais diferentes. Fica mais difícil para o vírus se multiplicar e dominar a região. Quando desmatamos, destruímos o lar de muitos animais, que acabam fugindo e/ou morrendo, e diminuímos a biodiversidade local. No momento em que os vírus aparecem em áreas menos biodiversas, seu espalhamento é amplificado, como já foi demonstrado para vírus como os da Febre do Nilo Ocidental e da doença de Lyme [5]. Além da perda de biodiversidade, os desmatamentos promovem um contato mais próximo entre a vida silvestre e os humanos, o que intensifica o risco da ocorrência de zoonoses [2].


Um dos motivos mais comuns para os desmatamentos é a criação de animais para consumo humano. Uma área repleta do mesmo tipo de animal é uma área com uma biodiversidade muito pobre, o que (como vimos acima) já aumenta por si só as chances do espalhamento de doenças. Somado a isso, grandes criações de animais servem como verdadeiras "pontes" entre as doenças de animais silvestres e os seres humanos, como já foi observado para os vírus da gripe aviária e da gripe suína [6, 7]. A agricultura, outro motivo dos desmatamentos, contribui para que (em média), a cada 4 meses, uma nova doença infecciosa surja em humanos [8]. Alguns fatores ligados à agricultura que contribuem para o surgimento de novas doenças são [9]:

(1) barragens e irrigação, que aumentam as populações de vetores de doenças (como mosquitos e caracois);

(2) uso excessivo de pesticidas e fertilizantes, que aumenta a resistência/abundância de vetores e patógenos;

(3) diminuição da biodiversidade da vegetação (monocultura), que facilita o espalhamento de doenças.


Fonte: [2], tradução livre.


Poluição piorando os sintomas


A poluição do ar que ameaça tanto o clima do planeta como a saúde das pessoas não é novidade para ninguém [10]. Já estamos "carecas" de saber que a poluição do ar causa vários problemas de saúde, como ataque do coração, derrame, diabetes e pressão alta, condições estas que também foram identificadas como agravantes das chances de morte por COVID-19 [11, 12]. Diversos estudos estão sugerindo que respirar ar mais poluído ao longo de anos pode piorar os efeitos causados pelo novo coronavírus.


Um estudo recente, que analisou mortes atribuídas à COVID-19 em regiões da Itália, Espanha, França e Alemanha, concluiu que 78% das mortes aconteceram nas 5 regiões mais poluídas destes países [13]. Outro estudo feito nos EUA aponta que um aumento muito pequeno da quantidade de material particulado (resíduos tóxicos que compõem a poluição do ar) está associado a um aumento de até 15% nas taxas de morte por COVID-19 [14]. Na China, uma análise de 120 cidades encontrou uma correlação significativa entre poluição do ar e infecção pelo SARS-CoV-2 [15]. No norte da Itália, as altas taxas de mortes por COVID-19 observadas estão correlacionadas com os maiores níveis de poluição do ar nesta região [16]. Ainda outro estudo traz dados assustadores: o material particulado faz com que nossos pulmões dobrem a produção da proteína ACE2 (à qual o SARS-CoV-2 se liga para invadir as nossas células), o que pode aumentar a carga viral nas pessoas expostas a esse poluente; enquanto isso, o dióxido de nitrogênio (outro "ingrediente" da poluição do ar) agrava os sintomas da COVID-19 nos pulmões [17].


Muito embora os lockdowns tenham ajudado a reduzir o tráfego de veículos e a poluição do ar [18], a exposição à poluição antes da pandemia afetou por um longo tempo a saúde das pessoas ao redor do mundo.


Mudanças climáticas dificultando o combate à COVID-19


Outra situação que não é muito comentada é como os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas podem acabar dificultando o combate ao novo coronavírus. Um exemplo disso é a temporada de furacões nos Estados Unidos e no Caribe, que está para começar agora em junho e está ficando, ano a ano, mais intensa devido ao aquecimento global [19, 20]. Estas tempestades podem acabar destruindo cidades inteiras, que estão começando suas reaberturas econômicas pós-lockdown, e deslocando pessoas para abrigos comunitários, o que pode causar uma nova onda de infecções devido à aglomeração.


No Brasil, os deslizamentos de terra e as enchentes também são fenômenos causados pelas alterações no clima [21]. As perdas econômicas que advêm destes eventos podem piorar a situação de pessoas que já estão vulneráveis devido à crise da pandemia. Indivíduos que precisam ser socorridos devido a estes acidentes podem não encontrar leitos em hospitais e as aglomerações de desabrigados podem gerar novos surtos de COVID-19.


** Mensagem para levar para casa **


Vimos aqui exemplos de situações em que tanto as causas (desmatamento, poluição) como as consequências (aumento de desastres naturais) das mudanças climáticas influenciam no agravamento do quadro de COVID-19.


Há anos, a ciência nos mostra que é necessário zerar o desmatamento e promover atividades humanas sustentáveis; atividades que levem em consideração o fato da preservação do meio ambiente ser tão vital quanto a preservação das vidas humanas.


Vivemos em um Brasil aonde o próprio ministro do meio ambiente aproveitou o período conturbado da pandemia para tentar passar reformas que permitem a ampliação do desmatamento da Mata Atlântica [22]. Fica clara a necessidade de optar por governantes que levem a sério a pauta ambiental e a necessidade de pressionar esses governantes para que elas(es) realmente levem a pauta adiante. Caso contrário, estaremos fadados a sofrer dois desastres (novas doenças infecciosas e mudanças climáticas) que, além de andarem de mãos dadas, intensificam um ao outro.



Referências


[1] 2020. UN Environment Programme. Coronaviruses: are they here to stay? https://www.unenvironment.org/news-and-stories/story/coronaviruses-are-they-here-stay?akid=7.5976.MBCGvl&rd=1&t=8. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[2] 2016. Frontiers 2016: Emerging issues of environmental concern. UN Environment. https://www.unenvironment.org/resources/frontiers-2016-emerging-issues-environmental-concern


[3] 2018. Nações Unidas Brasil. Desmatamento é 2ª maior causa das mudanças climáticas, revela FAO. https://nacoesunidas.org/desmatamento-e-2a-maior-causa-das-mudancas-climaticas-revela-fao/. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[4] 2009. Montira J. Pongsiri, Joe Roman,Vanessa O. Ezenwa, Tony L. Goldberg, Hillel S. Koren, Stephen C. Newbold, Richard S. Ostfeld, Subhrendu K. Pattanayak, Daniel J. Salkeld. Biodiversity Loss Affects Global Disease Ecology. BioScience. https://doi.org/10.1525/bio.2009.59.11.6


[5] 2011. A. Marm Kilpatrick. Globalization, land use and the invasion of West Nile virus. Science. doi: 10.1126/science.1201010


[6] 2018. Troy C. Sutton. The Pandemic Threat of Emerging H5 and H7 Avian Influenza Viruses. Viruses. doi: 10.3390/v10090461


[7] 2010. Gabriele Neumann, Takeshi Noda, and Yoshihiro Kawaoka. Emergence and pandemic potential of swine-origin H1N1 influenza virus. Nature. doi: 10.1038/nature08157


[8] 2012. McDermott, J. and Grace, D. Agriculture-assocaited disease: Adapting agriculture to improve human health. In Fan, S. and Pandya-Lorch, R. (eds), Reshaping agriculture for nutrition and health. International Food Policy Research Institute, Washington, D.C. http://ebrary.ifpri.org/cdm/ref/collection/p15738coll2/id/126825


[9] 2019. Jason R. Rohr, Christopher B. Barrett, David J. Civitello, Meggan E. Craft, Bryan Delius, Giulio A. DeLeo, Peter J. Hudson, Nicolas Jouanard, Karena H. Nguyen, Richard S. Ostfeld, Justin V. Remais, Gilles Riveau, Susanne H. Sokolow, and David Tilman. Emerging human infectious diseases and the links to global food production. Nature Sustainability. doi: 10.1038/s41893-019-0293-3


[10] Air pollution. WHO. https://www.who.int/health-topics/air-pollution#tab=tab_1. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[11] Coronavirus and Air Pollution. Harvard T. H. Chan. https://www.hsph.harvard.edu/c-change/subtopics/coronavirus-and-pollution/. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[12] 2020. Jing Yanga, Ya Zhenga, Xi Goua, Ke Pua, Zhaofeng Chena, Qinghong Guoa, Rui Jia, Haojia Wang, Yuping Wanga, Yongning Zhou. Prevalence of comorbidities and its effects in patients infected with SARS-CoV-2: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Infectious Diseases. https://doi.org/10.1016/j.ijid.2020.03.017


[13] 2020. Yaron Ogen. Assessing nitrogen dioxide (NO2) levels as a contributing factor to coronavirus (COVID-19) fatality. Science of The Total Environment. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.138605


[14] 2020. Xiao Wu, Rachel C. Nethery, M. Benjamin Sabath, Danielle Braun, Francesca Dominici. Exposure to air pollution and COVID-19 mortality in the United States: A nationwide cross-sectional study. MedRxiv. doi:https://doi.org/10.1101/2020.04.05.20054502

O estudo ainda não foi validado e publicado em revista científica.


[15] 2020. Yongjian Zhua, Jingui Xie, Fengming Huang, Liqing Cao. Association between short-term exposure to air pollution and COVID-19 infection: Evidence from China. Science of The Total Environment. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.138704


[16] 2020. Edoardo Conticini, Bruno Frediani, Dario Caro. Can Atmospheric Pollution Be Considered a Co-Factor in Extremely High Level of SARS-CoV-2 Lethality in Northern Italy? Environmental Pollution. doi: 10.1016/j.envpol.2020.114465


[17] 2020. Antonio Frontera, Lorenzo Cianfanelli, Kostantinos Vlachos, Giovanni Landoni, and George Cremona. Severe air pollution links to higher mortality in COVID-19 patients: the “double-hit” hypothesis. Journal of Infection. doi: 10.1016/j.jinf.2020.05.031


[18] 2020. The COVID-19 Stimulus Debate Is a Pivotal Climate Story. https://www.coveringclimatenow.org/climate-beat/the-covid-19-stimulus-debate-is-a-pivotal-climate-story. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[19] 2020. Unusually active hurricane season could threaten US effort to fight Covid-19. The Guardian. https://www.theguardian.com/world/2020/may/21/hurricane-us-coronavirus-covid-19-floods?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=5029c4aa4a-briefing-dy-20200521&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-5029c4aa4a-42107679. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[20] 2020. Global Warming and Hurricanes: An Overview of Current Research Results. NOAA. https://www.gfdl.noaa.gov/global-warming-and-hurricanes/. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[21] 2020. Climate crisis blamed for rains and floods that have killed 150 in Brazil. The Guardian. https://www.theguardian.com/environment/2020/mar/13/climate-crisis-blamed-for-rains-and-floods-that-have-killed-150-in-brazil. Último acesso: 14 de junho, 2020.


[22] 2020. Vanessa Nicolav. O que passou na “boiada” de Ricardo Salles durante a pandemia? Brasil de Fato. https://www.brasildefato.com.br/2020/06/09/o-que-passou-na-boiada-de-ricardo-salles-durante-a-pandemia. Último acesso: 14 de junho, 2020.

 
 

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