• vivi.casaroli

Imunidade cruzada: algumas pessoas já tinham proteção contra o novo coronavírus?

Que a COVID-19 pode ser letal em algumas pessoas e leve em outras, mesmo que essas pessoas tenham a mesma idade, não é novidade para ninguém. O nome do fenômeno que pode, em parte, explicar essa diferença na severidade da doença é imunidade cruzada. A imunidade cruzada ocorre quando as células do nosso sistema imunológico que nos conferem proteção a uma determinada doença acabam funcionando para proteger contra outras doenças; esse fenômeno segue o mesmo princípio do ditado popular:

"Matar dois coelhos com uma cajadada."

Coronavírus do MERS. Fonte: US Government department: The National Institute of Allergy and Infectious Diseases.


Os anticorpos não protegem ninguém sozinhos


O nosso corpo possui dois tipos de sistema imune: o inato e o adaptativo. O sistema inato é a "linha de frente" do corpo; as células desse sistema respondem de antemão e de forma genérica a qualquer invasor. Já o sistema adaptativo gera uma linha de defesa específica, adquirida após o contato com o patógeno. Essa imunidade específica possui uma memória que arquiva as características dos patógenos já combatidos para que eles possam ser facilmente reconhecidos e vencidos de novo no futuro.


Os nossos linfócitos B (parte do sistema adaptativo) fabricam anticorpos sob medida para os diferentes vírus que nos infectam; anticorpos estes que neutralizam o vírus e o deixam marcado para que outras células do nosso sistema imune o reconheçam e o destruam. Hoje, sabemos que os anticorpos produzidos contra o novo coronavírus diminuem passados 2-3 meses da infecção [1]. Isso é pouco tempo se considerarmos que alguns anticorpos ficam conosco por mais de uma década [2]. No entanto, os linfócitos B não são as únicas células presentes no arsenal da imunidade adaptativa. Os linfócitos T (que podem ser de vários tipos) também combatem os microrganismos invasores, destruindo qualquer "corpo estranho" que esteja perambulando pelo nosso organismo.


Alguns tipos de linfócito T, quando entram em contato com um vírus que invadiu o nosso corpo, acabam "aprendendo" como reagir àquele microrganismo específico. Essas células dão origem a toda uma linhagem de linfócitos T que também são capazes de "lembrar" e atacar aquele vírus [3]. São essas células que podem ter um papel chave na proteção contra o novo coronavírus dentro do corpo de algumas pessoas.


Velha imunidade, novo coronavírus


Dados de estudos feitos em diversos países do mundo mostram que de 20% a 50% das pessoas testadas que nunca entraram em contato com o SARS-CoV-2 possuem células T que reconhecem certas proteínas presentes no novo coronavírus e o atacam [4, 5, 6, 7]. Mas como isso é possível se as células T dessas pessoas nunca "viram" o novo coronavírus antes? Uma teoria que está sendo proposta para explicar este fenômeno (mas que ainda não foi cientificamente comprovada) é a de que essa imunidade contra o SARS-CoV-2 seja fruto de imunidade cruzada com a imunidade desenvolvida para outros tipos de coronavírus que causam resfriados comuns. O vírus da COVID-19 faz parte do grupo dos coronavírus, e estes vírus, muitas vezes, possuem proteínas muito parecidas entre si. Também é fato que mais de 90% da população humana já tenha desenvolvido imunidade para pelo menos três tipos de coronavírus que causam resfriado comum [8]. Será que a existência de uma memória das células T, advinda de infecções passadas, é um dos fatores que ditam se a pessoa infectada com COVID-19 tem sintomas mais leves ou mais severos?


Pessoas protegidas de antemão contra o novo coronavírus devido à imunidade cruzada com outros coronavírus de resfriado comum não seriam as primeiras a manifestar esse fenômeno. O mesmo ocorreu no passado com o vírus da H1N1: uma imunidade pré-existente já estava presente em parte da população humana antes mesmo que essas pessoas entrassem em contato com o vírus [9, 10]. No entanto, ainda são necessárias mais pesquisas para validar se a hipótese da imunidade cruzada é realmente o mecanismo por trás da imunidade pré-existente encontrada no sangue de pessoas que nunca entraram em contato com o novo coronavírus.


Vacinas multitarefa


A imunidade cruzada não precisa ter origem somente na imunidade gerada contra outros coronavírus; também é possível que ela aconteça a partir de vacinas já conhecidas. Já é sabido que algumas das vacinas que fazem parte da nossa rotina quando somos crianças (como a BCG e a tríplice viral) são capazes de conferir imunidade a enfermidades que não fazem parte das "enfermidades alvo" para as quais estas vacinas foram desenvolvidas [11, 12]. Isso acontece porque estas vacinas, além de fazerem com que o corpo produza anticorpos específicos para as "doenças alvo" delas, também acabam fortalecendo as células da imunidade inata, que compõem a "linha de frente" das defesas do organismo. Um fenômeno interessante e já comprovado em alguns estudos é o das células da imunidade inata apresentarem um tipo de memória (assim como os linfócitos 😮!) depois que algumas vacinas são administradas [12]. Existe a hipótese (ainda não comprovada cientificamente) de que algumas vacinas estejam, através do fortalecimento da imunidade inata, gerando imunidade cruzada para a COVID-19. Essa hipótese também explicaria porque crianças e adolescentes ficam menos doentes com o novo coronavírus; eles ainda podem estar colhendo os benefícios imunológicos proporcionados pelas vacinas que tomaram há pouco tempo atrás.


A hipótese ainda precisa ser testada e, no momento, diversos grupos de pesquisa estão conduzindo estudos para verificar se as vacinas desenvolvidas para outras doenças são mesmo capazes de proteger contra o SARS-CoV-2 [13]. Também existe um estudo que está verificando se o SARS-CoV-2 e os vírus alvo da vacina tríplice viral (vírus do sarampo, caxumba e rubéola) possuem proteínas parecidas, o que também explicaria uma imunidade cruzada proporcionada por essa vacina [14].


** Mensagem para levar para casa **


Se a imunidade cruzada for testada e comprovada, teremos uma fascinante explicação para o fato de que algumas pessoas e até mesmo alguns países são mais suscetíveis à COVID-19 do que outros. Vacinas que já são conhecidas e seguras poderiam ser administradas em profissionais da saúde para dar um "empurrãozinho" em sua imunidade e deixá-los mais protegidos. Testes que medem os anticorpos produzidos contra o novo coronavírus poderiam ser melhorados a fim de evitar falsos positivos, já que é possível que as proteínas de coronavírus de gripes comuns e da COVID-19 sejam similares a ponto de gerarem imunidade que serve para estes dois tipos de vírus.


Acompanhemos os resultados das pesquisas que estão tentando comprovar a veracidade da imunidade cruzada!



Referências


[1] 2020. Quan-Xin Long, Xiao-Jun Tang, Qiu-Lin Shi, Qin Li, Hai-Jun Deng, Jun Yuan, Jie-Li Hu, Wei Xu, Yong Zhang, Fa-Jin Lv, Kun Su, Fan Zhang, Jiang Gong, Bo Wu, Xia-Mao Liu, Jin-Jing Li, Jing-Fu Qiu, Juan Chen & Ai-Long Huang. Clinical and immunological assessment of asymptomatic SARS-CoV-2 infections. Nature. https://doi.org/10.1038/s41591-020-0965-6


[2] 2018. Emma E.Seaglea, Robert A.Bednarczyk, Tenisha Hill, Amy Parker Fiebelkorn, Carole J. Hickman, Joseph P.Icenogle, Edward A. Belongia, Huong Q.McLean. Measles, mumps, and rubella antibody patterns of persistence and rate of decline following the second dose of the MMR vaccine. Vaccine. https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2017.12.075


[3] 2016. Michael D. Rosenblum, Sing Sing Way, and Abul K. Abbas. Regulatory T cell memory. Nat Rev Immunol. doi: 10.1038/nri.2015.1


[4] 2020. Grifoni, A. et al. Targets of T cell responses to SARS-CoV-2 coronavirus in humans with COVID-19 disease and unexposed individuals.Cell. https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.05.015


[5] 2020. Weiskopf, D. et al. Phenotype of SARS-CoV-2-specific T-cells in COVID-19 patients with acute respiratory distress syndrome. medRxiv. https://doi.org/10.1101/2020.04.11.20062349

Artigo ainda não publicado em revista científica.


[6] 2020. Braun, J. et al. Presence of SARS-CoV-2 reactive T cells in COVID-19 patients and healthy donors. medRxiv. https://doi.org/10.1101/2020.04.17.20061440

Artigo ainda não publicado em revista científica.


[7] Le Bert, N. et al. Different pattern of pre-existing SARS-COV-2 specific T cell immunity in SARS-recovered and uninfected individuals. bioRxiv. https://doi.org/10.1101/2020.05.26.115832

Artigo ainda não publicado em revista científica.


[8] Gorse, G. J., Patel, G. B., Vitale, J. N. & O’Connor, T. Z. Prevalence of antibodies to four human coronaviruses is lower in nasal secretions than in serum. Clin. Vaccine Immunol. sci-hub.se/10.1128/CVI.00278-10


[9] 2009. Greenbaum, J. A. et al. Pre-existing immunity against swine-origin H1N1 influenza viruses in the general human population. Proc. Natl Acad. Sci. www.pnas.orgcgidoi10.1073pnas.0911580106


[10] 2009. Hancock, K. et al. Cross-reactive antibody responses to the 2009 pandemic H1N1 influenza virus. N. Engl. J. Med. DOI: 10.1056/NEJMoa0906453


[11] 2020. Samar Salmana and Mohamed Labib Salem. Routine childhood immunization may protect against COVID-19. Med Hypotheses. doi: 10.1016/j.mehy.2020.109689


[12] 2020. Mihai G. Netea, Evangelos J. Giamarellos-Bourboulis, Jorge Domínguez-Andrés, Nigel Curtis, Reinoutvan Crevel, Frank L.van de Veerdonk, MarcBonten. Trained Immunity: a Tool for Reducing Susceptibility to and the Severity of SARS-CoV-2 Infection. Cell. https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.04.042


[13] 2020. Natalia Pasternak. Vacinas velhas, vírus novo! O Globo. https://blogs.oglobo.globo.com/a-hora-da-ciencia/post/vacinas-velhas-virus-novo.html?fbclid=IwAR0CbgEseViljEniknrofFCJ0YkKZtMjuf58CLXIkJj7y72S1HP6Qn9NDV0. Último acesso: 15 de julho, 2020.


[14] 2020. Robin Franklin, AdamYoung, Bjoern Neumann, Rocio Fernandez, Alexis Joannides, Amir Reyahi, Yorgo Modis. Homologous protein domains in SARS-CoV-2 and measles, mumps and rubella viruses: preliminary evidence that MMR vaccine might provide protection against COVID-19. medRxiv. doi: https://doi.org/10.1101/2020.04.10.20053207

Artigo ainda não publicado em revista científica.

 
 

©2020 by Minute Bio. Proudly created with Wix.com