• vivi.casaroli

Um minutinho: Feliz dia do "É tudo eu nessa casa!"

Três milagres de mães que, assim como a sua, fazem de tudo - de tudo mesmo - pelos seus filhotes!


(1) Mãe polvo de jejum


Quando pensam nesse animal, a maioria das pessoas com certeza não vai associá-lo a cuidado maternal. Mas o fato é que esse invertebrado é uma das mães mais dedicadas do mundo animal. Os polvos têm grandes cérebros e habilidades incríveis de resolução de problemas [1], mas uma vida relativamente curta, que dura somente um ou dois anos [2]. Um dos fatores que encurtam a vida dos polvos é o fato desses animais serem semélparos, que é um nome chique que damos a animais que se reproduzem somente uma vez na vida antes de morrer.


Depois que a mãe polvo coloca seus ovos, que podem vir em um número enorme de até 100.000 unidades [3], ela começa a vigiá-los da forma mais cuidadosa possível. A fêmea do polvo-gigante-do-Pacífico (Enteroctopus dofleini) usa um músculo chamado sifão (que se parece com um tubo mesmo) para soprar água com oxigênio e nutrientes por cima de seus ovos [4]. Dessa forma, ela também os mantém limpos e livres de bactérias. Essa mãe vigia os ovos 24 horas por dia e guarda seus bebês tão de perto que não sai do lado deles em momento algum, nem para comer. Foi reportado um caso de uma mãe polvo que ficou vigiando seus filhotes sem comer por 4 anos e meio [5]! Com certeza os filhotinhos dela sobreviveram para contar a história.


(2) Mãe pássaro dando "de mamar"


Quando é para a sobrevivência dos filhotes, muitas mães conseguem realizar o impossível. Todos nós sabemos que os pássaros não pertencem ao grupo dos mamíferos e, portanto, não dão de mamar aos seus filhotinhos. Mas a mãe flamingo-americano (Phoenicopterus ruber), a espécie de flamingo com as cores mais vibrantes do mundo, "desenvolveu" uma estratégia para alimentar seus filhotes que desafia essa regra.


Os filhotinhos de flamingo ainda não têm um bico desenvolvido capaz de filtrar crustáceos e algas para a sua alimentação [6]. A mãe flamingo, então, alimenta seus filhotes com um tipo de "leite" vermelho chamado leite de papo. Esse "leite" não sai de uma glândula mamária do peito, como nas humanas, e sim do papo dessa ave, que é um compartimento musculoso que fica dentro da garganta das aves. No papo, forma-se um líquido cheio de proteínas, minerais e gordura, assim como no leite dos mamíferos [7]. E mais! Já foi reportado que o leite de papo também transfere anticorpos da mãe para o filhote, igual o leite humano, e que esse leite é o que dá a coloração rosa bonita aos filhotinhos [7, 8]. Fornecer o leite de papo é custoso para a mãe flamingo, já que ela acaba perdendo um pouco da sua própria coloração no processo [6]. Sacrifício de mãe, né?


Esse leite também é produzido pelas mães pombas e rolinhas [8]. Aposto que você nunca mais vai olhar para os pombos da mesma forma.


(3) Mãe sapo com super memória


A rela-morango (Oophaga pumilio) é uma espécie de sapo que vive na América Central e tem o tamanho de uma moeda de 1 real quando adulta. Depois que essa mãe coloca seus ovos (3 - 5 ovos em média), ela espera calmamente por algumas semanas até que os girinos nasçam [9, 10]. É aí que começa a ação.


Se os girinos ficarem juntos, eles vão acabar comendo uns aos outros sempre que tiverem fome [6]! A mãe sapo separa essa matança entre irmãos (que mãe nunca?) transportando cada girininho individualmente para pequenas poças d'água que se formam no meio das bromélias. Cada girino acaba morando em uma bromélia diferente. Em seguida, a mãe passa por volta de 50 dias visitando e alimentando cada girino individualmente [6]. Ela não só lembra o lugar exato aonde cada um de seus filhotes está como também sabe reconhecer, se houver mais de um girino na mesma bromélia, qual girino é seu filhote e qual girino é filhote de outra mãe [11].


A mãe sapo "sabe" que seus filhotes são chegados em se alimentar de seus irmãozinhos. Na hora de alimentá-los, então, o que ela faz? Ela produz ovos não fertilizados - ou seja, que não tem nenhum filhote dentro - para alimentar os girinos. Dessa forma, ela garante a pança cheia e a sobrevivência de todos os seus filhotes.


** Mensagem para levar para casa **


O cuidado de mãe não é privilégio único de nós, humanos. Esse cuidado pode ser observado nos mais inesperados animais e acredita-se que, ao longo da evolução, esse comportamento de cuidado surgiu de forma independente nos mais diversos grupos de seres vivos [12].


Os cientistas acreditam que o comportamento de cuidado parental surgiu (evoluiu) porque os benefícios dele se provaram mais numerosos do que os seus custos ao longo do tempo [13]. Acredita-se que a seleção natural leva ao surgimento desse comportamento quando, na ausência de cuidado, a taxa de mortalidade dos filhotes é alta, dentre outros fatores [13].


O momento é de reflexão e fascínio com a capacidade quase que "sobrenatural" que as mães animais (incluindo as nossas mães humanas) têm de - ao prover, nutrir e proteger - salvar a vida de seus filhotes todos os dias.



Referências


[1] 2016. Richter JN, Hochner B, Kuba MJ. Pull or Push? Octopuses Solve a Puzzle Problem. PLoS One.


[2] 1983. Mangold K. Reproduction. In: Boyle PR, editor. Cephalopod life cycles, comparative reviews, vol. 2 . Academic Press, London. pp. 157–200.


[3] 2014. Conrath, Christina L.; Conners, M. Elizabeth. Aspects of the reproductive biology of the North Pacific giant octopus (Enteroctopus dofleini) in the Gulf of Alaska. Fishery Bulletin . Oct2014, Vol. 112 Issue 4, p253-260. 8p.


[4] 2017. Langley L. 6 Fierce Animal Moms That Go to Extremes For Their Young. National Geographic. odecademy.com/learn/paths/data-science. Último acesso: 9 de maio, 2020.


[5] 2014. Bruce Robison, Brad Seibel, and Jeffrey Drazen. Deep-Sea Octopus (Graneledone boreopacifica) Conducts the Longest-Known Egg-Brooding Period of Any Animal. PLoS One.


[6] 2015. Douglass M. 10 astonishing animal parents. BBC. http://www.bbc.com/earth/story/20150723-10-astonishing-animal-parents. Último acesso: 9 de maio, 2020.


[7] 2006. Cyril Eraud, Adrien Dorie, Anne Jacquet and Bruno Faivre. The crop milk: a potential new route for carotenoid-mediated parental effects. Journal of Avian Biology.


[8] 2007. Eric J. Baitchman, Michael F. Tlusty and Hayley W. Murphy. Passive Transfer of Maternal Antibodies to West Nile Virus in Flamingo Chicks (Phoenicopterus chilensis and Phoenicopterus ruber ruber). Journal of Zoo and Wildlife Medicine.


[9] Duellman, W., L. Trueb. 1986. Biology of Amphibians. New York, NY, USA: McGraw-Hill Book Company.


[10] Savage, J. 2002.The Amphibians and Reptiles of Costa Rica. Chicago: University of Chicago Press.


[11] 2009. Jennifer L. Stynoski. Discrimination of offspring by indirect recognition in an egg-feeding dendrobatid frog, Oophaga pumilio. Animal Behaviour.


[12] 1996. Parental care : evolution, mechanisms, and adaptive significance. Rosenblatt, Jay S ed Snowdon, Charles T. ed. San Diego : Academic.


[13] 2010. Hope Klug, Michael B. Bonsall. Life History and the Evolution of Parental Care. International Journal of Organic Evolution.

 
 

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