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Como a pandemia de COVID-19 vem escancarando a pseudociência japonesa



日本人は「新型コロナウイルスにかかりにくい」のか?

"Os japoneses são 'menos propensos a pegar o novo coronavírus'?" é o título estampado em uma notícia do Yahoo News, um dos portais de notícias mais populares do Japão [1]. A notícia compara superficialmente a situação da pandemia em países como Brasil e Chile e no Japão. Sem considerar qualquer aspecto socioeconômico que possa diferir entre esses países e influenciar o andar da pandemia nos mesmos, o autor da notícia segue dizendo que, apesar das medidas de contenção tomadas pelo Japão terem funcionado, é também possível que os japoneses possuam algum "fator exclusivo" que os tornem menos propensos ao vírus, dando a entender que esse "fator" estaria relacionado à genética ou raça.


A conclusão de que existem fatores intrínsecos a qualquer 'raça' humana que tornem as pessoas mais ou menos propensas à infecção pelo SARS-CoV-2 não é muito inteligente. Primeiro porque, do ponto de vista genético, não existem raças humanas [2], e as variações dentro de uma única etnia (seja ela asiática, negra, latina, etc) podem ser tão grandes e expressivas quanto as variações entre etnias consideradas diferentes [2, 3].


Segundo porque muitas das iniciativas que tentam estabelecer uma relação entre etnias humanas e propensão à COVID-19 acabam agrupando as pessoas erroneamente de acordo com a cor da pele somente, e não de acordo com o código genético (não é possível colocar pessoas negras do Caribe e da África como sendo da mesma "etnia", por exemplo, como foi feito em um estudo do Reino Unido) [3]; até agora não temos dados robustos que consigam relacionar propensão à infecção com etnias específicas.


Terceiro porque muitas das comorbidades que mais agravam os sintomas da COVID-19, como a diabetes, por exemplo, estão pobremente relacionadas a fatores genéticos [3, 4], o que complica as coisas na hora de usar a genética dos diferentes grupos étnicos para explicar porque algumas etnias sofrem mais do que outras. Ao mesmo tempo em que a genética não nos oferece respostas claras, o racismo estrutural consegue explicar muito bem porque diferentes etnias sofrem de jeitos diferentes com o novo coronavírus [5, 6]. Os argumentos fornecidos acima parecem não ser muito discutidos e aprofundados pela imprensa do Japão, aonde a mídia frequentemente noticia, sem comprovação científica, a existência de um "fator genético/racial" que protegeria os japoneses da infecção [alguns exemplos de notícias com esse viés: 7, 8, 9].


O Japão é um país mundialmente conhecido por suas tecnologias avançadas e tradições milenares. No entanto, um aspecto muito forte presente no país (e que não é muito discutido) é como a pseudociência prospera na sociedade japonesa. A pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em fatos científicos, mas que não resulta da aplicação de métodos propriamente científicos [10]. Não é de hoje que a pseudociência encontra espaço na Terra do Sol Nascente. No passado, o Japão já usou a pseudociência popular que defende que o "tipo sanguíneo das pessoas dita a sua personalidade" para separar as pessoas por grupo sanguíneo e tratá-las de modo discriminador em escolas, treinos olímpicos e até mesmo em empresas [11]. O Japão também já foi bastante criticado por permitir tratamentos com células tronco de eficácia não comprovada [12]. A recente crise da COVID-19 apenas evidenciou a forte influência que a pseudociência já exercia sobre o país.


Pseudociência em tempos de COVID-19? Vai muito bem, obrigado


A pseudociência no Japão tem sido não só aceita como também amplamente divulgada em rede nacional durante a pandemia. Talvez um dos exemplos mais infames seja o de um "experimento" feito pela emissora de televisão japonesa TBS, aonde foi "demonstrado" para os telespectadores que um dos motivos pelo qual a COVID-19 foi contida no Japão foi a pronúncia do idioma japonês, que "espalharia menos gotículas contagiosas" do que a pronúncia da língua inglesa, por exemplo: confere aqui!



Muito embora existam evidências de que a pronúncia de alguns fonemas pode emitir mais partículas de aerosol do que outros [13], não podemos afirmar com certeza nem quais fonemas de quais idiomas são mais perigosos e nem se o aerosol emitido pela fala realmente carrega vírus capazes de infectar pessoas [14]. Definitivamente, pendurar um pedaço de papel na frente de uma única mulher japonesa e pedir para que ela repita a mesma frase em japonês e em inglês não prova nada com relação à epidemiologia da COVID-19 no Japão.


Outro exemplo pseudocientífico clássico dessa pandemia é o do "repelente de vírus" (mostrado abaixo). Várias marcas comercializam este item em todo o Japão e ele é, inclusive, distribuído para funcionários de órgãos públicos japoneses e para governos de países africanos [15]. É um tipo de "crachá" que você pode afixar na roupa, no cinto, na bolsa ou em qualquer outro acessório para "repelir" os vírus ao seu redor e conseguir andar por aí livremente com "segurança"; essa habilidade repelente viria através da progressiva liberação de dióxido de cloro, contido no interior do "crachá".



Apesar do dióxido de cloro apresentar efeito antiviral in vitro [16], não existem evidências científicas que comprovem a eficácia desse químico quando ele é liberado no ar a partir do acessório de uma pessoa em movimento. Também não sabemos se ele tem qualquer efeito contra o novo coronavírus na concentração utilizada. Além disso, o dióxido de cloro é potencialmente prejudicial à nossa saúde [17].


Em uma pesquisa de 2018, feita pela empresa estadunidense 3M, de todos os 14 países pesquisados (incluindo o Brasil), o Japão ficou em último como país aonde as pessoas confiam nos cientistas e no método científico [18]. Isso é sintomático de uma sociedade aonde a pseudociência ganha tanto ou mais notoriedade do que a ciência feita nas universidades. Estes dados apontam para a necessidade de mais iniciativas, por parte do governo japonês, que visem disseminar ciência de qualidade para a população no geral. Iniciativas de divulgação da ciência são poucas e relativamente recentes no país [19]. Como demonstrado em episódios passados e agora nesta pandemia, estas iniciativas ainda têm um longo e desafiador percurso pela frente.


** Mensagem para levar para casa **


É interessante constatar que a pseudociência não é um fenômeno particular de países em desenvolvimento; ela está prosperando também em países com índices educacionais e econômicos invejáveis como o Japão. A importância de iniciativas que busquem ativamente divulgar ciência para a população em geral torna-se cada vez mais evidente. Estas iniciativas são tão necessárias quanto fazer ciência de qualidade nos laboratórios de pesquisa.


Situações de crise, como a pandemia de COVID-19, são os episódios que frequentemente revelam, na sociedade, tendências de desinformação e pseudociência. Alguns exemplos de como a pseudociência pode causar danos, como vimos acima, são quando ela apresenta "curas" que na verdade não funcionam e quando ela leva as pessoas a acreditarem que sua "raça" realmente possui algo de mais especial que as outras. Precisamos, mais do que nunca, saber analisar com cuidado as informações que chegam até nós, mesmo aquelas que fazem uso de jargão científico e aparentam vir de pesquisas sérias. Não se engane: a ciência de qualidade nunca traz respostas fáceis e prontas, e sempre vai aderir ao método científico. O resto é achismo.



** Ressalva: resido e faço pesquisa acadêmica no Japão há 5 anos. Como em todos os países em que morei, a relação das pessoas com a pseudociência tem suas peculiaridades por aqui. Neste texto, relato uma face da sociedade japonesa pouco comentada mas bastante experimentada por mim durante a minha vivência no país. De forma alguma, estou limitando a sociedade japonesa a um único aspecto negativo. No entanto, acredito que olhar de forma crítica para a sociedade na qual estamos inseridos é saudável, necessário e, potencialmente, transformador.



Referências


[1] 2020. Yahoo News. https://news.yahoo.co.jp/articles/0172dd7cf73f690bb9ed17818cc13beeffa21442. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[2] 2018. Kolbert, E. There’s No Scientific Basis for Race—It's a Made-Up Label. National Geographic. https://www.nationalgeographic.com/magazine/2018/04/race-genetics-science-africa/. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[3] 2020. Coronavirus: its impact cannot be explained away through the prism of race. The Conversation. https://theconversation.com/coronavirus-its-impact-cannot-be-explained-away-through-the-prism-of-race-138046. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[4] 2005. J Oldroyd, M Banerjee, A Heald, K Cruickshank. Diabetes and ethnic minorities. BMJ. http://dx.doi.org/10.1136/pgmj.2004.029124


[5] 2011. Gilbert C. GeeandChandra L. Ford. Structural Racism and Health Inequities: Old Issues, New Directions. Du Bois Rev. doi: 10.1017/S1742058X11000130


[6] 2020. Tonia PoteatGreg MillettLaRon E NelsonChris Beyrer. Understanding COVID-19 Risks and Vulnerabilities Among Black Communities in America: The Lethal Force of Syndemics. Ann Epidemiol. DOI: 10.1016/j.annepidem.2020.05.004


[7] https://dot.asahi.com/wa/2020062400024.html?page=1. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[8] https://news.yahoo.co.jp/articles/542fccde6866d9b910ccbb4ff4b94466c4930282. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[9] https://www.yomiuri.co.jp/medical/20200521-OYT1T50272/. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[10] Renato Vicente. Ciência e Pseudociência. Capítulo 5. http://www.each.usp.br/rvicente/TADI04_CienciaPseudociencia.pdf


[11] 2012. Evans, R. Japan and blood types: Does it determine personality? BBC News. https://www.bbc.com/news/magazine-20170787. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[12] 2019. Cyranoski, D. The potent effects of Japan’s stem-cell policies. Nature News Feature. https://www.nature.com/articles/d41586-019-02847-3?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=62eef63063-briefing-dy-20200326&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-62eef63063-42107679. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[13] 2020. Sima Asadi, Anthony S. Wexler, Christopher D. Cappa, Santiago Barreda, Nicole M. Bouvier, William D. Ristenpart. Effect of voicing and articulation manner on aerosol particle emission during human speech. PLoS ONE. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0227699


[14] 2020. Yuan Liu, Zhi Ning, Yu Chen, Ming Guo, Yingle Liu, Nirmal Kumar Gali, Li Sun, Yusen Duan, Jing Cai, Dane Westerdahl, Xinjin Liu, Ke Xu, Kin-fai Ho, Haidong Kan, Qingyan Fu & Ke Lan. Aerodynamic analysis of SARS-CoV-2 in two Wuhan hospitals. Nature. https://doi.org/10.1038/s41586-020-2271-3


[15] 2020. Mwai, P. Coronavirus: The misinformation circulating in Africa about Covid-19. BBC News. https://www.bbc.com/news/world-africa-52819674?akid=9.5976.Zg6gTT&rd=1&t=7. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[16] 2010. Takeshi Sanekata, Toshiaki FukudaTakanori MiuraHirofumi MorinoCheolsung LeeKen MaedaKazuko ArakiToru OtakeTakuya KawahataTakashi Shibata. Evaluation of the Antiviral Activity of Chlorine Dioxide and Sodium Hypochlorite Against Feline Calicivirus, Human Influenza Virus, Measles Virus, Canine Distemper Virus, Human Herpesvirus, Human Adenovirus, Canine Adenovirus and Canine Parvovirus. Biocontrol Sci. doi: 10.4265/bio.15.45.


[17] 2020. Coronavirus (COVID-19) Update: FDA Warns Seller Marketing Dangerous Chlorine Dioxide Products that Claim to Treat or Prevent COVID-19. FDA News Release. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/coronavirus-covid-19-update-fda-warns-seller-marketing-dangerous-chlorine-dioxide-products-claim. Último acesso: 28 de junho, 2020.


[18] 2018. 3M State of Science Index. Global Report. https://multimedia.3m.com/mws/media/1515295O/presentation-3m-state-of-science-index-2018-global-report-pdf.pdf


[19] 2018. Ayumi Koso, Amanda Alvarez. The land of rising science communication: the first Japan Scicom Forum. Journal of Science Communication. DOI: https://doi.org/10.22323/2.17030601

 
 

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