• vivi.casaroli

Evidências anedóticas e o primo do porteiro atestado com COVID

Todos os dias, milhões de pessoas ao redor do mundo estão constantemente iniciando e alimentando discussões sobre o novo coronavírus. Uma plataforma estadunidense de gerenciamento de experiência do cliente, a Sprinklr, registrou mais de 19 milhões de menções ao novo coronavírus em diversas redes sociais no dia 11 de março (dia em que a OMS declarou o surto de COVID-19 como pandemia) [1]. Um relatório do Twitter declarou que, no começo de abril, um novo tweet relacionado à COVID-19 estava sendo compartilhado a cada 45 milissegundos [2]. Infelizmente, no meio desse montante de informação, existem muitas notícias falsas e relatos questionáveis. Todos nós já lemos/escutamos histórias de pessoas que se curaram da COVID-19 ou contaram sobre alguém que se curou utilizando os mais diversos fármacos e tratamentos possíveis.



Em ciência, nós chamamos os relatos acima de evidências anedóticas. Esse tipo de evidência consiste em uma pessoa relatando a sua experiência individual sobre algo que funcionou ou não funcionou para ela. Pessoas leigas em determinado assunto não são as únicas autoras de evidências anedóticas, a "experiência clínica" dos médicos e os "relatos de caso" (comuns no meio acadêmico) também são exemplos de evidências anedóticas, com a diferença de que são contadas por especialistas.


Qual é o problema com essas histórias?


As evidências anedóticas são úteis. Por vezes, fazemos uso delas para tomar decisões. Quando queremos comprar um produto novo - seja maquiagem, um notebook, ou um carro - é proveitoso escutar o que as pessoas estão falando sobre. Podemos consultar depoimentos, críticas e avaliações na internet que ajudarão a guiar a nossa escolha final. No entanto, o tom da conversa muda quando estamos falando de remédios e tratamentos para uma doença. Quando o assunto mexe com a nossa saúde, não é suficiente ir atrás de informações úteis; precisamos, além disso, de informações confiáveis.


Nós, seres humanos, adoramos pensar que somos seres racionais, objetivos e lógicos. No entanto, estamos diariamente sob a influência de vieses cognitivos que distorcem as nossas conclusões, interferem naquilo em que cremos, e manipulam as nossas decisões e julgamentos. Existem pelo menos 195 jeitos diferentes das suas conclusões estarem enviesadas quando você está analisando uma determinada sequência de eventos [3]. Como somos seres subjetivos e cheios de viés, as anedotas não são boas o suficiente para serem usadas como provas de que certo tratamento foi eficaz ou não.


No passado, as anedotas podem ter salvado as vidas de muitas pessoas. Se um dia uma pessoa comeu uma frutinha venenosa e morreu, as pessoas ao redor pararam imediatamente de comer aquela fruta e espalharam a história, impedindo que mais pessoas morressem. Hoje em dia, entretanto, temos o método científico (depois dá um Google nisso 😉 )- que tem sido desenvolvido e aperfeiçoado há séculos - para nos ajudar a tomar decisões mais informadas e com a menor quantidade possível de viés.


Nunca saberemos se as histórias do Twitter são reais ou invenção. Mas vamos supor que as pessoas contando estas histórias insistam que elas realmente aconteceram. Quais seriam alguns dos fatores que poderíamos apontar como possíveis erros de conclusão destas pessoas?


(1) Falácia da Regressão

Achar que determinada ação causou determinado efeito quando, na verdade, os efeitos possíveis naquela situação variam naturalmente.

Assim como em muitas outras doenças, em aproximadamente 80% dos casos, a COVID-19 melhora sozinha [4]. O que nos garante que o remédio que uma pessoa decidiu tomar foi o que realmente a curou? Pode ser que essa pessoa esteja nesses 80% de casos que curam-se sozinhos e foi o próprio corpo dela que a livrou da doença.

Obs: Só porque a maioria dos casos não são fatais não significa que não devamos tomar cuidado com a COVID-19. Ainda precisamos nos preocupar com a lotação de hospitais e os 15% de casos severos - 15% é muita gente na população do Brasil!


(2) Variável de confusão

Achar que determinada ação causou determinado efeito quando, na verdade, foi uma outra ação (não contabilizada pela pessoa) que causou aquele efeito.

Vamos supor que uma pessoa afirmou ter tomado vitamina D para se prevenir da COVID-19 e essa pessoa, de fato, acabou não pegando o novo coronavírus. Foi a vitamina D que a salvou? Ou será que foram outras ações que essa pessoa tomou (álcool gel, distanciamento social, lavar as mãos sempre, etc) que realmente a salvaram? Como saber com certeza?


(3) Viés de confirmação

Achar que determinada ação causou determinado efeito quando, na verdade, você está apenas focando em confirmar suas crenças iniciais.

No mesmo exemplo citado acima, a pessoa começou a tomar a vitamina D já acreditando que isso a ajudaria a se prevenir contra o novo coronavírus. Se ela realmente não contrai a doença, as chances dessa pessoa atribuir o bom resultado à vitamina D são grandes, afinal, ela já esperava por esse resultado quando começou a tomar a vitamina. Essa pessoa nem sequer pára para analisar se outros fatores podem ter contribuído para o resultado esperado; ela diretamente atribui o efeito à vitamina D. Imagina espalhar essa história incerta no Twitter?


(4) Heurística de disponibilidade

A ação da qual você se lembra com mais facilidade é considerada a mais importante.

Uma pessoa contrai COVID-19 e consegue se curar. A última coisa que essa pessoa fez, logo antes de melhorar, foi fazer um gargarejo com bicarbonato de sódio e limão. Ao lembrar desse fato, a pessoa atribui a sua melhora ao gargarejo. Mal sabe essa pessoa que a imunidade de seu corpo já está lutando contra a infecção faz tempo! Que injustiça, o gargarejo não merece esse prestígio todo só porque é a última coisa da qual a pessoa se lembra antes de melhorar.


(5) Viés de memória

Distorções das nossas memórias.

Fazendo uso desse viés, pesquisadores certa vez conseguiram fazer com que 1/3 das pessoas em seu estudo acreditassem que um evento fictício fez parte de suas infâncias [5]. Algumas pessoas desse estudo até adicionaram por conta detalhes extras nessa "memória" inventada! O nosso cérebro é muito bom em preencher as lacunas da nossa memória com "fatos" aleatórios e em nos convencer a acreditar nestes episódios.


Da mesma forma, quando estamos doentes, é fácil nos convercermos de que nossos sintomas "ficaram melhores" depois de termos ingerido chá de gengibre, vitamina C, alho, açafrão, glutamina etc. A maioria das pessoas não registra os seus sintomas diariamente e no mesmo horário com rigidez e, por isso, elas podem ter a impressão de que ficaram melhores quando, na realidade, nada mudou em seu quadro clínico.


Existem ainda outros tipos de erros que influenciam as conclusões das evidências anedóticas [6].


** Mensagem para levar para casa **


Mesmo que as muitas histórias que escutamos por aí sejam reais e não inventadas, não podemos ter certeza de que as pessoas contando estas histórias não caíram em uma das armadilhas cognitivas apresentadas acima.


Então, como ter certeza de qualquer coisa? É aí que entra o método científico. Durante os testes de um medicamento, a ciência se baseia em uma porção de medidas criadas para minimizar os muitos vieses humanos: uso de grupos controle, realização dos mesmos experimentos de novo e de novo, cálculos estatísticos, remoção dos casos excepcionais, controle de todas as variáveis que podem influenciar na observação, teste cego, etc.


Tratando-se de remédios e "curas", quando os dados apresentados pela ciência e pelas evidências anedóticas são contraditórios, devemos sempre escolher o lado da ciência. É o método mais à prova de erros que temos no momento. Enquanto aguardamos por um remédio que funcione com comprovação científica, vocês já sabem: distanciamento social, lavar as mãos com sabão, usar máscaras em público, ficar em casa!



Referências


[1] 2020. Rani Molla. How coronavirus took over social media. Vox. https://www.vox.com/recode/2020/3/12/21175570/coronavirus-covid-19-social-media-twitter-facebook-google. Último acesso: 21 de junho, 2020.


[2] 2020. Alex Josephson and Eimear Lambe. Brand communications in time of crisis. Twitter Report. https://blog.twitter.com/en_us/topics/company/2020/Brand-communications-in-time-of-crisis.html. Último acesso: 21 de junho, 2020.


[3] List of cognitive biases. Wikipedia. https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cognitive_biases. Último acesso: 21 de junho, 2020.


[4] 2020. China CDC Weekly. Vital Surveillances: The Epidemiological Characteristics of an Outbreak of 2019 Novel Coronavirus Diseases (COVID-19). http://weekly.chinacdc.cn/en/article/id/e53946e2-c6c4-41e9-9a9b-fea8db1a8f51. Último acesso: 21 de junho, 2020.


[5] 2016. Alan Scoboria, Kimberley A. Wade, D. Stephen Lindsay, Tanjeem Azad, Deryn Strange, James Ost & Ira E. Hyman. A mega-analysis of memory reports from eight peer-reviewed false memory implantation studies. Memory. https://doi.org/10.1080/09658211.2016.1260747


[6] 2012. João Coutinho. Evidência Anedótica. COMCEPT. http://comcept.org/2012/04/29/evidencia-anedotica/. Último acesso: 21 de junho, 2020.

 
 

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