• vivi.casaroli

Dá para pegar COVID-19 duas vezes? O que sabemos até agora.



No caso do sarampo, catapora, e caxumba, nunca mais pegamos a doença depois da primeira vez. No caso da gripe e do herpes, ainda é possível pegar uma forma mais leve da doença depois da primeira infecção. Qual dessas tendências será que o SARS-CoV-2 está seguindo?


O melhor anti-viral já descoberto: nossa imunidade adquirida


O nosso corpo tem dois tipos diferentes de imunidade: a passiva e a ativa. Quando somos infectados por um vírus novo, quem entra em ação para identificar e combater o novo patógeno é a imunidade ativa. Um dos tipos de células mais importantes dessa categoria de imunidade são os linfócitos. Essas células, através de um complexo processo de ativação molecular [1], se tornam capazes de reconhecer certas proteínas presentes nos vírus que nos infectam.


Quando somos infectados e os vírus conseguem se ligar às células do nosso corpo e adentrá-las, eles começam a produzir proteínas de vírus dentro das nossas células a fim de se replicarem. Essas proteínas de vírus eventualmente escapam pela membrana das nossas células, e é aí que os linfócitos T conseguem reconhecê-las. Os linfócitos T passeiam pelo nosso corpo todo e, caso se deparem com proteínas de vírus expostas nas membranas de alguma célula, matam essa célula do corpo antes que o vírus consiga usá-la para sua própria multiplicação [2]. Os linfócitos B produzem anticorpos: proteínas que se ligam ao vírus e impedem que este, por sua vez, se ligue às células do nosso corpo. É dessa forma que nosso corpo trava uma batalha interna para se livrar das doenças que pegamos.


Nossa imunidade tem "memória", o que significa que, uma vez que aprendemos a vencer um vírus, reconheceremos aquele vírus e o venceremos rapidamente se entrarmos em contato com ele de novo.


E as pessoas que já venceram o corona? Ficaram imunizadas?


Sabemos que ser infectado pelo mesmo vírus duas vezes é algo que já acontece com vírus pertencentes ao grupo dos coronavírus em geral [3]. Um estudo na China mostrou que 4 pacientes que se curaram de COVID-19 e apresentaram testes negativos para o vírus voltaram a apresentar testes positivos para o SARS-CoV-2 de 5 a 13 dias depois de serem liberados do hospital [4]. Outros casos na China também seguiram esse padrão [5]. Na Coreia do Sul, os casos de pacientes que se curaram e depois testaram positivo novamente para o novo coronavírus já são 263 no total [6]. A própria OMS declarou que ainda não há evidências para afirmar que se curar da COVID-19 significa ficar imune à ele [7]. Importante frisar que, até o momento, não há casos reportados de pessoas contaminadas por aqueles que se recuperaram da COVID-19 e depois testaram positivo de novo para o vírus [5].


Um estudo feito em macacos, mas que ainda não foi publicado em uma revista científica (ou seja, os dados desse estudo ainda não foram revisados pela comunidade científica), aponta para a possibilidade de que é possível sim adquirir imunidade após desenvolver COVID-19 [8]. Precisamos ficar de olho para ver se esse estudo será validado no futuro.


A pergunta feita no início desse texto, sobre se é possível ou não ser re-infectado pelo SARS-CoV-2, ainda não tem uma resposta. No entanto, quais podem ser algumas das razões pelas quais as pessoas estão testando positivo para o novo coronavírus após se recuperarem dele?


(1) Vírus mutando

Algo que poderia explicar uma re-infecção é a mutação do DNA ou RNA do vírus durante um período de tempo. Se o vírus fica diferente, fica difícil para a imunidade do nosso corpo reconhecê-lo. Mas, no caso do SARS-CoV-2, as mutações estão se apresentando muito menos comuns do que no vírus da gripe, por exemplo: menos de 25 mutações por ano para o novo coronavírus comparadas com quase 50 mutações por ano para o vírus da gripe [9, 10]. A mutação do vírus provavelmente não é o motivo pelo qual estão aparecendo testes positivos para pessoas que já se recuperaram.


(2) Longa permanência no corpo

Uma razão que pode explicar os testes positivos após a recuperação dos pacientes é a longa permanência do vírus (inteiro ou partes dele) no corpo. Um estudo encontrou um sobrevivente da COVID-19 que apresentou o vírus em seu corpo por 37 dias após a infecção [11]!


(3) Imunidade que diminui com o tempo

Uma re-infecção poderia ser explicada pelo fato de que a imunidade que adquirimos para alguns vírus, como o da hepatite B, por exemplo, pode diminuir com o tempo [12]. Isso também poderia estar ocorrendo com os pacientes recuperados de COVID-19. No entanto, sobreviventes do SARS, um dos parentes mais próximos do SARS-CoV-2, desenvolveram anticorpos que duraram até 3 anos depois da primeira infecção [13]. É possível, então, que os anticorpos para o SARS-CoV-2 sigam esse mesmo padrão. Demorará alguns anos para confirmarmos quanto tempo leva para que os anticorpos comecem a diminuir no corpo dos imunizados.


(4) Vírus dormente

Uma hipótese que foi levantada para explicar os testes positivos pós-recuperação é a do SARS-CoV-2 ter um mecanismo de ação parecido com o do vírus da herpes. Nesse caso, o vírus da COVID-19 conseguiria ficar "dormente" e indetectável por um período de tempo e eclodir novamente caso a imunidade da pessoa esteja baixa. Mais uma vez, precisaremos de mais estudos antes que essa hipótese seja comprovada, mas é uma explicação interessante.


(5) Problemas nos testes

Algo que não podemos ignorar é o fato de que os testes que deram "positivo" após a recuperação dos pacientes sejam falsos positivos. É possível que a pessoa que coletou a amostra para o teste não tenha passado o cotonete direito na garganta do paciente. Ou ainda, é possível que o primeiro teste que indicou que o paciente estava livre do vírus tenha sido um falso negativo e que o paciente tenha sido liberado do hospital quando na verdade ainda estava doente, tendo testado positivo para SARS-CoV-2 posteriormente. Os testes são a melhor ferramenta que temos agora no combate ao novo coronavírus, mas ainda é possível que uma parte pequena deles falhe.


** Mensagem para levar para casa **


Muitas possibilidades foram levantadas para o estranho fenômeno que está sendo observado no momento: pacientes que se recuperaram e testaram negativo para o SARS-CoV-2 sendo testados novamente dias depois e recebendo resultados positivos para a presença do vírus.


Tão importante quanto descobrir se a re-infecção está de fato acontecendo é descobrir qual é a porcentagem de casos em que este fenômeno ocorre e por quê.


Outras duas perguntas-chave que precisarão ser respondidas através de estudos científicos são: (1) Por quanto tempo os anticorpos para a COVID-19 ficam presentes no corpo humano? e (2) Por quanto tempo estes anticorpos, estando presentes, são capazes de prevenir uma re-infecção?


Informações de estudos novos não param de chegar! Aguardemos os próximos capítulos.



Referências


[1] 2001. Janeway CA Jr, Travers P, Walport M, et al. "The production of armed effector T cells". Immunobiology: The Immune System in Health and Disease. 5th edition. New York:Garland Science.


[2] 2001. Janeway CA Jr, Travers P, Walport M, et al. "The recognition and effector mechanisms of adaptive immunity". Immunobiology: The Immune System in Health and Disease. 5th edition. New York:Garland Science.


[3] 1983. D Isaacs,D Flowers,J R Clarke,H B Valman, andM R MacNaughton. Epidemiology of coronavirus respiratory infections. Archives of Disease in Childhood 58(7): 500–503.


[4] 2020. Lan Lan, MD1;Dan Xu, MD1;Guangming Ye, MD2; et al. Positive RT-PCR Test Results in Patients Recovered From COVID-19. JAMA. 323(15):1502-1503.


[5] 2020. Kenneth I. Zheng, Xiao-Bo Wang, Xiang-Hong Jin, Wen-Yue Liu, Feng Gao, Yong-Ping Chen, Ming-Hua Zheng. A Case Series of Recurrent Viral RNA Positivity in Recovered COVID-19 Chinese Patients. Journal of General Internal Medicine.


[6] Korea Centers for Disease Control and Prevention (KCDC). The updates on COVID-19 in Korea as of 26 April. https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030. Last accessed on: April 26, 2020.


[7] 2020. Scientific Brief. "Immunity passports" in the context of COVID-19. https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19. Last accessed on: April 26, 2020.


[8] 2020. Ota, M. Will we see protection or reinfection in COVID-19? Nature Reviews Immunology.


[9] https://nextstrain.org/ncov/global?l=clock. Last accessed on: April 26, 2020.


[10] https://nextstrain.org/flu/seasonal/h3n2/ha/2y?l=clock. Last accessed on: April 26, 2020.


[11] 2020. Fei Zhou, Ting Yu, Ronghui Du, Guohui Fan, Ying Liu, Zhibo Liu et al. Clinical course and risk factors for mortality of adult inpatients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective cohort study. The Lancet.


[12] 2017. H. V. Sahana, N. Sarala, and S. R. Prasad. Decrease in Anti-HBs Antibodies over Time in Medical Students and Healthcare Workers after Hepatitis B Vaccination. Biomed Research International.


[13] 2007. Li-Ping Wu,Nai-Chang Wang, Yi-Hua Chang, Xiang-Yi Tian, Dan-Yu Na, Li-Yuan Zhang, Lei Zheng, Tao Lan, Lin-Fa Wang, and Guo-Dong Liang. Duration of Antibody Responses after Severe Acute Respiratory Syndrome. Emerging Infectious Diseases.

 
 

©2020 by Minute Bio. Proudly created with Wix.com