• vivi.casaroli

Artigos científicos retirados do ar


** Este texto foi escrito respeitando-se a inclusão dos gêneros masculino e feminino em artigos, pronomes e alguns substantivos. Entendo que esse método de escrita, além de conter binarismo, atrapalha a fluidez do texto em alguns pontos. No entanto, acho importante reafirmar - em textos que tratam sobre ciência - a existência de mulheres cientistas e a representação (cada vez mais expressiva) delas no meio acadêmico. Recomendo que o leitor, ao navegar o texto, escolha o gênero de sua preferência e leia o artigo até o final aderindo a este gênero.


Até o momento, se considerarmos apenas os artigos científicos sobre COVID-19, mais de 30 publicações já foram retiradas do ar [1]. Isso inclui um estudo muito bizarro sobre como a tecnologia 5G induziria a criação de partículas de SARS-CoV-2 nas células da pele [2] e outro bastante suspeito sobre como a homeopatia poderia ajudar no tratamento da COVID-19 [3]. Quando eu escrevo "retirados do ar", quero dizer que estas pesquisas foram publicadas em revistas científicas e, depois de alguma contestação vinda da comunidade científica, estes estudos foram removidos das plataformas em que estavam. Que plataformas eram essas? A das revistas científicas!


Quando lemos em uma notícia jornalística as frases "pesquisadores descobriram" ou "estudos afirmam", se o veículo de imprensa é de qualidade, podemos ter certeza de que os repórteres buscaram a informação em um artigo publicado em revista científica. Da mesma forma como buscamos informações sobre moda, tecnologia ou fofocas em revistas/jornais específicos, as/os cientistas também produzem suas próprias revistas (ou journals, em inglês), aonde elas/eles podem ler sobre as pesquisas umas/uns das/os outras/os.


Pouca gente sabe por que é necessário que as pesquisas sejam publicadas em revistas científicas e muito menos conhece o processo que é feito sempre que uma pesquisa é submetida para publicação. Além disso, como vimos nos exemplos [1], [2] e [3], também existem falhas nesse processo e, às vezes, alguns artigos um tanto quanto "cabeludos" acabam sendo publicados. Vamos dar uma olhadinha nesse bastidor da ciência que é tão pouco comentado.


O processo da revisão por pares (peer review)


Para que uma pesquisa seja considerada científica, ela deve, necessariamente, seguir os passos do método científico, que vem sendo desenvolvido e aperfeiçoado há séculos! É comum que já tenhamos aprendido na escola ou na internet sobre os passos fundamentais do método científico (eles não precisam seguir a ordem mostrada na figura abaixo, mas esta é a ordem mais comum):



Uma vez que a/o cientista percorre os passos acima e chega a uma conclusão, é interessante que ela/ele divida essa conclusão com suas/seus colegas cientistas. Dessa forma, ela/ele pode tanto discutir mais a fundo os seus resultados, como também receber ideias, observações, convites para uma colaboração e até mesmo cobranças construtivas que enriqueçam o seu trabalho. A fim de divulgar as suas conclusões e começar esse canal de comunicação, as/os cientistas submetem as suas pesquisas para uma revista científica que publique pesquisas relacionadas à sua área (algumas das mais famosas são a Nature, a Science, The Lancet e a PLOS One).


No entanto, não é só submeter a pesquisa para a revista e pronto, eles irão publicar como está! Antes que o estudo seja publicado, ele será analisado pela/o editora/or da revista (que, comumente, também é uma/um cientista). Se a pesquisa for aprovada pela/o editora/or, ela será encaminhada para mais uma análise. Para essa segunda análise, a/o editora/or convida cientistas que pesquisam o mesmo assunto ou assuntos relacionados. Esse processo aonde outras/os cientistas analisam a pesquisa antes da publicação é chamado de revisão por pares (ou peer review, em inglês). A revisão por pares segue o seguinte fluxo:


Imagem baseada na imagem de Wiley (https://authorservices.wiley.com/Reviewers/journal-reviewers/what-is-peer-review/the-peer-review-process.html).


Por que é necessário que outros pesquisadores da área analisem o artigo científico antes dele ser publicado?


Basicamente, é porque nós, humanos, somos imperfeitos; a revisão por pares busca minimizar essa imperfeição. Quando trabalhamos intensivamente em um mesmo projeto, acabamos "nos acostumando" com ele e entrando em alguns "círculos viciosos": não conseguimos perceber erros por conta própria; achamos que a nossa conclusão é óbvia quando, na verdade, ela não está claramente demonstrada; apresentamos vieses cognitivos que poluem o nosso julgamento; etc. Os pares ajudam a superar tudo isso. Além disso, os pares podem apontar para melhores técnicas a serem utilizadas na metodologia, erros de análise estatística que passaram despercebidos, experimentos que estão faltando para que a conclusão do trabalho esteja mesmo correta...em suma, eles contribuem para melhorar ainda mais a qualidade do trabalho! O artigo só é publicado se passar pelo crivo da/o editora/or e das/dos cientistas convidados para julgar o trabalho.


Normalmente, as etapas aonde a/o editora/or e os pares fazem revisões e mandam o artigo de volta para a/o autora/or que, por sua vez, corrige as revisões e manda o artigo novamente para a revista se repetem exaustivamente! Às vezes, o artigo científico fica nesse "bate-volta" e demora mais de um ano para ser completamente revisado e aprovado. Isso quando ele não é rejeitado no meio do processo ou logo de cara pela/o editora/or da revista (acontece bastante 😭).


Algumas falhas desse processo


Apesar de ser o melhor jeito encontrado até o momento para julgar um trabalho científico, o processo da peer review é cheio de gafes...


1. As/Os revisoras/revisores são sobrecarregados com trabalho e não recebem nenhum tipo de treinamento para a revisão.

Pelo menos 2,5 milhões de artigos científicos são publicados todos os anos [4], tirando aqueles que foram lidos mas foram rejeitados para publicação. Haja especialista para quem mandar esse tanto de artigo! Muitas vezes, as/os cientistas pares (que já são abarrotados de trabalho) ficam sobrecarregados com tanta revisão para fazer, o que também acaba comprometendo a qualidade da revisão. Elas/eles não recebem qualquer tipo de treinamento sobre "como revisar o artigo alheio" e raramente são pagos por esse trabalho.


2. A revisão por pares pode estar brecando projetos inovadores.

Para que o artigo seja publicado, ele precisa ser aprovado de forma unânime por todas/os as/os revisores. Às vezes, quando um artigo a ser revisado apresenta ideias que estabelecem uma nova tendência científica ou conclusões que desafiam os paradigmas vigentes, ele pode encontrar resistência por parte das/dos revisores. Em 2015, um grupo de pesquisadores acompanhou mais de 1.000 artigos científicos que foram submetidos para revistas de prestígio [5]. Muitos dos artigos foram rejeitados pelas revistas prestigiosas, mas foram aceitos por revistas menores. 14 desses artigos publicados em revistas menores chegaram a ser os mais citados de todos os 1.000 artigos, mais citados até do que os artigos que foram aceitos pelas revistas prestigiosas. (Um artigo ser bastante citado por outros é sinal de que aquela pesquisa é "quente" 🔥; interessante e promissora.)


3. A revisão por pares é tendenciosa.

Normalmente, os revisores têm acesso ao nome da/o autora/or do artigo científico e à instituição à qual essa/e autora/or pertence. Alguns estudos apontam para o fato de que as mulheres cientistas estão muito pouco representadas entre os autores, editores e revisores do processo; a maioria dessas vagas são ocupadas por homens [6, 7, 8, 9]. Análises também demonstraram que a menor representação pelas mulheres não é porque "existem menos mulheres disponíveis para estas posições" [6]. Outro estudo indicou que editores homens tendem a convidar apenas revisores homens para o processo da revisão por pares [10].


Além do gênero, a etnia e até mesmo a língua materna das/os autoras/res também acabam influenciando as decisões dos revisores, muito embora eles devessem ser neutros com relação a estes parâmetros [11, 12, 13].


** Mensagem para levar para casa **


Muitas vezes, a qualidade da revisão não é das melhores e alguns artigos estranhos acabam passando pelo crivo da peer review. As/os autoras/res dos artigos também podem cometer erros honestos em suas pesquisas (que só são contabilizados após a publicação). Estes erros podem ser consertados através da remoção do artigo publicado, como tem acontecido com tantos artigos sobre a COVID-19, ou da publicação de correções pós-publicação.


Quem é pesquisador já está acostumado ao grande número de artigos cancelados todos os anos (foram mais de 1.400 só em 2019 [14])! O grande número de artigos retirados do ar indica que as/os cientistas estão de fato lendo e criticando os trabalhos umas/uns das/dos outras/os, o que ajuda a manter um certo nível de qualidade entre os artigos que ainda se encontram publicados.


Apesar de todos os defeitos, existem evidências de que o processo de revisão por pares realmente ajuda a qualidade de um artigo científico a melhorar [15], principalmente na área da saúde (alô, artigos de COVID!). A peer review definitivamente não é um processo perfeito para a aceitação ou rejeição de uma pesquisa científica. Mas ela é o método mais à prova de erros que conseguimos desenvolver até agora.


O que você sugeriria para melhorar esse processo de revisão?



Referências


[1] Retracted coronavirus (COVID-19) papers. Retraction Watch. https://retractionwatch.com/retracted-coronavirus-covid-19-papers/. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.


[2] 2020. Worst paper of 2020? 5G and Coronavirus induction. https://scienceintegritydigest.com/2020/07/23/worst-paper-of-2020-5g-and-coronavirus-induction/. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.


[3] Blaming “overflow of manuscripts” and “obviously biased” reviewers, journal will retract homeopathy-COVID-19 paper. Retraction Watch. https://retractionwatch.com/2020/07/27/blaming-overflow-of-manuscripts-and-obviously-biased-reviewers-journal-will-retract-homeopathy-covid-19-paper/. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.


[4] 2015. Ware, M and Mabe, M. The STM Report: An overview of scientific and scholarly journal publishing. STM. https://www.stm-assoc.org/2015_02_20_STM_Report_2015.pdf


[5] 2015. Kyle Siler, Kirby Lee, and Lisa Bero. Measuring the effectiveness of scientific gatekeeping. PNAS. https://doi.org/10.1073/pnas.1418218112


[6] 2017. Markus Helmer, Manuel Schottdorf, Andreas Neef, Demian Battaglia. Research: Gender bias in scholarly peer review. eLife. DOI: 10.7554/eLife.21718


[7] 2017. Kiermer, V. Gender and Age Bias in Peer Review in Earth and Space Science Journals. Eighth International Congress on Peer Review and Scientific Publication. https://www.youtube.com/watch?v=MtTBcPtVMfA


[8] 2012. Nature’s sexism. doi:10.1038/491495a


[9] 2017. Jory Lerback & Brooks Hanson. Journals invite too few women to referee. doi:10.1038/541455a


[10] 1994. Julie R. Gilbert; Elaine S. Williams; George D. Lundberg. Is There Gender Bias in JAMA's Peer Review Process? JAMA. doi:10.1001/jama.1994.03520020065018


[11] 2020. Nygaard, L. P. Black Scholars Matter: Power and Prejudice in Academia. PRIO Blogs. https://blogs.prio.org/2020/07/black-scholars-matter-power-and-prejudice-in-academia-2/. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.


[12] 2019. Romero-Olivares, A. L. Reviewers, don’t be rude to nonnative English speakers. Science. doi:10.1126/science.caredit.aaz7179


[13] 2019. Ryuko Kubota. Confronting Epistemological Racism, Decolonizing Scholarly Knowledge: Race and Gender in Applied Linguistics. Applied Linguistics. https://doi.org/10.1093/applin/amz033


[14] 2019. Retraction Watch. The Top Retractions of 2019. https://www.the-scientist.com/news-opinion/the-top-retractions-of-2019-66852. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.


[15] 1994. Steven N. Goodman, Jesse Berlin, Suzanne W. Fletcher. Manuscript Quality before and after Peer Review and Editing at Annals of Internal Medicine. Annals of Internal Medicine. http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.1004.2101&rep=rep1&type=pdf


[16] 2018. Aaron E. Carroll. Peer Review: The Worst Way to Judge Research, Except for All the Others. NYT. https://www.nytimes.com/2018/11/05/upshot/peer-review-the-worst-way-to-judge-research-except-for-all-the-others.html. Último acesso: 1o. de agosto, 2020.

 
 

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